Suzana Travassos Valdez

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Sabia que a esperança era capaz de ser o mais cruel dos enganos e, ainda assim, o único abrigo possível.

Do Belo, tudo se frui, nada se exclui.

Viver é arriscar! Escrever é aventurar-se e largar os arneses da vida!

O que eu temia era a nitidez com que percebia cada tremor de alma, o que me apavorava era, que a consciência, lúcida em demasia, como lâmina, me pudesse rasgar o pensamento.

O que éramos nós, sem o assombro, o espanto, a sensibilidade? Conchas do Mar Morto? Perfeitas por fora, mas sem trazer o som do mar encostado ao ouvido, apenas o sussurro seco do próprio deserto.

Naquele silêncio que enfrentava, onde as palavras não chegavam nem partiam, sentia-me perdida.

O vazio interior não era edifício ideal, antes casca de ostra sem pérola.

Talvez o sol não dourasse as lembranças, como ali, naquele momento no interstício de tempos, entre a noite e a madrugada.

A humidade da noite entranhava-se na minha pele, a pedra trajava-se a relento.

Como se de um milagre se tratasse, nasceu claridade amarelada daquele lampião.

Teria eu o direito de forçar a entrada a quem me encarcerara por entre as páginas e as palavras?

Voltei-me assustada. Ninguém! Apenas o encarvoado das fachadas e o azul invisível do céu a cair sobre mim.

Sabia, contudo, que a memória do amarelo cintilava em mim como folha de ouro dos afectos largados.

Olhei para dentro de mim, era lá que habitava a memória inaugural.

Aquela cor que não era sol nem lua, mas a terceira luz, a que só acendia onde o tempo se esquecia de passar.

O pai ensinara-me a sensibilidade, a avó adivinhara-o desde sempre. O futuro di-lo-ia em susto permanente.

Ali, prostrada, percebi que o tempo vindouro que relembrava, se tornava pretérito...

Olhei, já em antecipação, para o lugar do ruído de sobressalto, horrorizei-me. O horror susteve o grito, o medo sufocou-o e deixou-me paralisada.

Um mesmo medo, um mesmo tremor. Um outro horror de gente crescida a ser obrigada à intrepidez que nunca desejara.

Trincou-me o tempo na face, menos bochechuda...

Bem-amada era a infância que se movera até mim.

Outrora, nesse tempo garantidamente, já gasto pelos dias passantes, pelo desabar dos poentes, as crianças não detinham palavras de exigência.

As dores eram, naquele tempo límpido, apenas rasgos de vermelho, isentas de crescidos cuidados.

Apenas uma aranha na sua lida. Fiquei a observá-la naquele fascinante entretecer dos valorosos e inalteráveis fios de seda.

Viria o juízo de braço dado com a idade ou com os dentes de siso?