Ruan Carlos S. de Freitas
Inteiro...
Eu não estava procurando nada.
A vida seguia. Imperfeita, mas minha.
Então você chegou.
E quando chegou,
o mundo não fez barulho,
fez sentido.
Nada precisou ser preenchido.
Algumas coisas apenas encontraram lugar.
Eu observei.
Não por desinteresse,
mas porque quem já caiu
aprende a respeitar o tempo das coisas.
Havia cuidado no teu jeito.
E o cuidado verdadeiro não invade,
permanece.
Aos poucos, baixei a guarda.
Não por promessa,
mas porque parecia seguro existir ali.
Eu tinha feridas.
Não escondi.
Estou tratando.
As tuas ainda sangravam.
Não por fraqueza,
mas por medo do que cresce,
do que exige futuro.
Eu entendi.
E não te culpei.
Eu errei.
Como erra quem se envolve de verdade.
Mas soube parar,
olhar de novo,
voltar melhor.
Não ofereci um conto bonito.
Ofereci presença.
E isso eu sustentei.
Você me fez acreditar de novo.
Não em finais perfeitos,
mas na possibilidade de caminhar junto.
Por isso me mostrei.
Inteiro.
Sem personagem.
Com falhas, medos, noites mal dormidas
e a coragem de dizer: é aqui que eu fico.
Eu confiei.
E confiança nunca é ingenuidade,
é escolha consciente.
Eu te amei.
E ainda amo.
Não como quem espera algo em troca,
mas como quem respeita o que foi real.
O que é verdadeiro não se apaga quando termina.
Muda de lugar.
Vira memória viva,
não ferida aberta.
Eu sei quem eu fui.
E sei quem sou agora.
Minha felicidade não depende de você.
Mas ao teu lado,
ela teria sido mais calma,
mais casa,
mais chão.
Eu quis ser teu homem.
E, por um tempo,
isso foi verdade para nós dois.
Hoje eu sigo.
Inteiro.
Sem culpa.
Sem ruído.
Com amor onde ele cabe
e dignidade suficiente
para não negar o que senti.
Graciela
Ela aprendeu a ser forte cedo demais. Dá pra ver no jeito que segura o mundo como se nunca tivesse tido escolha.
E eu já vi o instante em que essa força falha, não por fraqueza, por confiança. Já vi quando ela encosta a testa no meu peito e respira fundo, como se ali pudesse baixar a guarda.
O olhar dela não me observa. Me atravessa. Tem algo ali que desafia e, ao mesmo tempo, se entrega. E eu gosto dessa contradição.
O sorriso ilumina, mas a boca dela não beija por acaso. Ela beija como quem decide ficar. Lenta. Quente. Sem plateia.
Eu penso na boca dela quando estou sozinho. Penso no jeito que ela fecha os olhos quando minha mão encontra a curva da cintura e o corpo dela responde antes da razão.
Ela é forte, sim. Mas o corpo dela entrega o que a postura tenta esconder quando encontra abrigo.
Eu não quero diminuir a força dela. Eu quero ser o único lugar onde ela não precise usá-la.
Porque quando ela ama, não é superfície. É incêndio que sabe onde queimar.
E eu desejo esse fogo, não para apagar, para arder junto.
Graciela.
Nem todo dia vai ser leve,
alguns pesam mais do que a gente gostaria.
mas todo dia carrega uma chance:
a de recomeçar.
a vida não pede perfeição,
pede coragem.
coragem de errar e aprender,
de cair e levantar,
de olhar pra trás e ver que já não somos os mesmos.
cada dia é uma oportunidade
de ser um pouco melhor do que ontem,
de se superar
e provar a si mesmo
que a vida vale o esforço.
Tempo não faz nada sozinho. Ele não cura, não resolve, não transforma. Ele apenas passa. Quem decide o que nasce dele é você. O tempo só produz resultado quando é atravessado com consciência. Dor ignorada vira peso. Dor enfrentada vira força. Não é o relógio que amadurece alguém, é a forma como cada um encara o que viveu. Há quem espere o tempo agir e há quem age dentro do tempo. No fim, ele só amplia aquilo que você escolhe alimentar. Se você ressignifica, cresce. Se você remoer, endurece. O tempo é neutro. A postura é tudo.
Amor é Para os Loucos
Amor não é para os sábios.
É para os loucos.
O sábio calcula.
O louco entrega.
Só o louco dá tudo sem garantias.
Só o louco suporta a dor da incerteza
e a fragilidade do sentimento
sem transformar o coração em defesa.
Amar é um salto no vazio
onde a lógica não alcança.
É expor o peito ao risco
sabendo que pode doer.
É aceitar o caos
que nasce junto com a paixão
e, ainda assim, permanecer.
Dois sábios se preservam.
Dois loucos se escolhem.
E no amor,
é melhor dois loucos ardendo juntos
do que dois sábios intactos
e vazios.
O dia nasceu.
A casa ainda quieta,
o quarto meio escuro,
e uma faixa de luz atravessando o chão
como se alguém tivesse aberto o mundo devagar.
Eu ainda estava cheio de ontem
quando percebi
que ele vinha limpo.
Não trouxe promessa.
Trouxe espaço.
Tem manhã que abre o céu.
Tem manhã que pesa nas nuvens.
Hoje eu não discuto com nenhuma delas.
Até a chuva tem um modo de cair
que parece cuidado.
Deus repete esse gesto todos os dias
e a gente quase não nota.
O dia nasceu.
E eu fico ali,
com a luz tocando o chão,
sem dizer nada.
Olhares
Há olhares que chegam sem aviso
mudam o rumo do dia
Há olhares que nos levam
a lugares onde nunca estivemos
mas que, de algum jeito,
sempre nos esperaram
Há olhares que vão
Mesmo assim ficam
E eu sei
qual ficou.
Saudade do tempo de criança
Saudade do tempo de criança
quando corria na chuva
ou brincava no barro
sem medo de se sujar
saudade do tempo de criança
dos pés descalços no quintal
do vento no rosto
e do cheiro de terra molhada
saudade do tempo de criança
da bola correndo solta
na rua de terra
do interior
onde morava a felicidade
e da bicicleta velha
que parecia voar
saudade do tempo de criança
das noites calmas
com grilo cantando no escuro
e o céu vermelho
se despedindo da tarde
saudade do tempo de criança
quando criança queria ser grande
engraçado
quando cresceu
deu saudade de ser criança
saudade daquele tempo
em que tudo que se imaginava
parecia possível
porque tem coisas
que o tempo não apaga
a criança ainda mora aqui
nos sonhos guardados
na esperança teimosa
em tudo aquilo
que um dia a criança sonhou
e que ainda pode acontecer
porque no fundo
a criança nunca foi embora
ela só ficou ali
quietinha
esperando a gente lembrar dela.
