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Romário Camelo

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Poema I
Suprassumo pensar


A alma — ah, a alma
ora templo, ora caverna,
sonho de ser eterna,
conturbada ou calma.

Sussurrava e gritava
entre lágrima e pranto,
fino e suave manto,
porque alma ela era.

Não só carne,
nem só memória —
mas a fragrância do espírito.

Não só escrita,
nem só história —
mas a essência em um abismo.

A alma — ah, a alma.

Pensamento I
Autoflagelar




O julgar de si próprio é um sentido de Deus.
Se é o sexto, ou o sétimo sentido,
eu não sei.


Mas sei disso:


Assim como a bússola aponta pro norte,
a régua com que te medes...


...te medirá.

Pensamento II
A sombra do juízo




"Sendo o homem mal capaz de julgar a si mesmo, que pretensão lhe cabe, então, ao julgar outrem?

Somente sobre fundamentos morais que não foram forjados por suas próprias mãos — alicerçados em princípios e verdades transcendentes — pode o homem aspirar a julgar com justiça."

Poema II
A voz escrita

A palavra dita voa, a escrita permanece.
Um pacto silencioso entre ausentes,
ou a flecha lançada em forma de prece.


É o selo. A prova. A herança:
memória que jamais se esquece.


É urgência. É chama. É marca —
a palavra dita, que no ar estremece.

Pensamento III
Ignorância ou liberdade
I.

Se a verdade liberta,
por que tantos fogem dela como se fosse fogo —
e acolhem a mentira como se fosse mãe?

Se há ordem nas estrelas,
por que reina o caos no coração?

O que distingue o dom da graça
da encenação fria do hipócrita?

Conhecer o bem e praticar o mal —
seria ignorância? Ou liberdade em rebelião?

II.

O que perdeu Deus ao dar o livre-arbítrio?
— O controle.
Mas o trocou pela chance do amor verdadeiro.

III.

Deus correu o risco do mal
para criar seres livres o bastante
para recusá-lo —
e, por isso mesmo, capazes de escolhê-lo.

IV.

O que separa o dom da graça
da máscara do hipócrita?

— A intenção:
um se entrega,
o outro apenas representa.

Frase I
Poder de vida e morte

Muitos são os inimigos —
mas há um de perigo imenso:
ele se esconde na caverna dos dentes.

Metáfora expandida I
Um Sonho Distante

Eu tive um sonho distante.
Neste sonho, éramos muitos — porém, um só.
Um a cada capítulo, membros de um único livro.
Cada página à frente só podia enxergar as páginas de trás.
O título era o passado: um sonho distante.
O futuro, o capítulo final — e o fim da história.

Essa história tomava emprestadas referências de outros livros na mesma prateleira.
Mas a prateleira também nos rotulava.
E esses rótulos, ironicamente, eram o que nos prendia àqueles livros —
livros que estavam ao nosso lado,
também sonhando o mesmo sonho distante.

Mas conversávamos do logradouro de outra biblioteca.
Essa não falava nossa língua —
e, ainda assim, tinham dúvidas semelhantes às nossas.

O sonho de todo livro era ser mencionado,
e, quem sabe, ganhar sua própria saga e volume.
Mas para isso era preciso um ato raro:
libertar-se de si mesmo.

Contudo, sempre que um ousava mencionar outro,
vozes sussurravam ao redor:
— É um sonho distante.

Pensamento IV
O que criamos nós?


Se o chuveiro imita a chuva,
se a lâmpada finge ser sol,
se o tecido sonha ser pele —
o que criamos nós?


Se a roda é vista da lua,
se domamos o galope com fogo,
se voamos como pássaros,
ou pairamos como libélulas —
o que criamos nós?


Copiamos. Adaptamos.
Ajustamos o mundo à nossa imagem.
Chamamos isso de invenção.
Mas no fim, manipulamos.

Pensamento V
Claro silêncio


A ânsia de fazer atropela o compreender.
A reação impulsiva engana o pensamento.
O ego isola mais que o silêncio.
Mas o silêncio — esse, é íntimo do entendimento.

Poema III
Repente de um poeta



Já vi cacto dar flor no silêncio da aflição,
E vi lágrima em dor, em sorriso e oração.
Quem planta o sonho bruto, colhe verso em cada mágoa —
O que rega o futuro? Suor e lágrima, vulgo: água.

O sol não tem compaixão, a chuva virou promessa,
E a terra só dá legume se a fé não for só conversa.
O filho da estiagem tem coragem desde os ossos —
Não murmura a miséria, nem destrata um dos nossos.

Já vi homem ter dinheiro e morrer sem ter sentido,
E matuto sem um troco dividir o seu abrigo.
A riqueza que perdura não se mede por moeda —
Mora é na intenção, no coração de um poeta.

Poema IV
Pequeno verso de preço


O homem inventou o dinheiro — e deu valor à escassez,
Mas nem tudo é dinheiro, nem com dinheiro se fez.
Fez, sim, muita riqueza... condenando muitos à malta,
E a prisão da moeda nem se nota — até que ela nos falta.

Pensamento VI
A sede falsa

“O status quo tem por hábito — ou antes, por mania — oferecer-lhe a cicuta como se fosse água, e depois acusá-lo de atentar contra si mesmo.”

Pensamento VII

Invisível vento

“O anel de Giges, dado a um pastor, abre ao menos três cenários:
a usurpação e a traição no poder;
a moralidade sustentada pelo mérito ou pelo medo;
e o desprezo daqueles que rejeitam a justiça.

No presente, a invisibilidade assume outras formas:
o anonimato, que oculta o rosto;
a influência, que age como mão invisível;
e a complacência, que é a decisão invisível de nada fazer.

E, como sempre, quem se recusa a escolher um lado, acaba escolhendo o lado do vencedor.”

A parábola do capitalismo medieval


"Havia um homem, detentor de terras, que tinha trabalhadores à sua disposição. Ao colher o trigo, repartia-o com eles seguindo um princípio em seu coração: 'Duas vezes ao ano colho o fruto da terra, mas estes trabalhadores não possuem terras; farei, então, assim: repartirei o necessário para que comam, eles e suas famílias, por meio ano. Nem a mais, para que não deixem de trabalhar, nem a menos, para que não morram de fome'.


Assim fez o senhor da terra, repartindo conforme seu intento. Porém, a ganância surgiu em seu coração, e pensou consigo: 'Estes homens podem me roubar ou, de má-fé, sabotar minha colheita. Se eu puser animais para puxar o arado, precisarei de menos trabalhadores na minha sega'.


A pergunta é: repartirá o senhor da terra o trigo que economizou com os trabalhadores que restaram ou se preocupará apenas em aumentar o estoque de seu celeiro?"

Pensamento VIII


"Ora, empresta então teu saber; pois, ao contrário da moeda, que ao ser dada subtrai, o entendimento, ao ser dividido, multiplica."

Pensamento IX


"Por fim, ao ver com olhos de ver, notei que a pressa me roubou o tempo; não pelo movimento, mas pelo entendimento. A água cede mais facilmente à pouca força, e a pressa jamais permite a delicadeza que a sabedoria, como tesouro, exige."

Pensamento X
"o tempo."


"Quando me ponho a pensar, o tempo é abstração matemática: pontos de vista do passado, rascunhos do que se espera; coleções de memórias e ilusões intocáveis. O ser observa as ocorrências e, em meio à névoa, calcula as consequências. Onde o ser observa o tempo, ali o tempo estagna. A realidade é a prisão do observador, mas ela não perdura; logo, o observador — agora desencarcerado — compreende o fato sem ser apenas um recorte."

Pensamento XI
A sorte favorece os audazes

"Ouve isto: a sorte fica adiante de quem ela quer. Todavia, se a porta em que bate está fechada, ela logo desiste e segue seu caminho. Sim, esta não avisa e exige recepção; mas se, ouvindo tu falares dela, fores ao seu encontro em busca do 'talvez', ela não poderá te ignorar por muito tempo."

Pensamento XII
"a razão em segundo plano"

"Tenho mil pensamentos e cem sentimentos, mas digo apenas dez palavras. Ainda assim, ouvem cinco, entendem três, recordam-se de uma, mas só consideram a emoção."

Atualidade I
"Epstein"


"O quadro divulgado na ilha de Epstein sugere que a elite discute uma síntese filosófica entre neurociência, computação e misticismo. É como se acreditassem que vivemos dentro de uma simulação matemática, chamada de 'Realidade Virtual de Base Biológica'."

Pensamento XIII
"a verdade com 'v' minúsculo"


"Se pensamos para existir e buscamos a verdade, eis as peças que nos cabem: o que se pega, o que se define e o que se vive. Tal como o alimento está para o pão, e os pães estão para a fome."

Pensamento XIV
"moderno saber."


"Não é porque vivemos na era da informação que edificaremos pessoas entendidas. De que te servem sete mares, se te satisfazes com um copo d'água? A resposta está nisto: o tamanho da sede."

Pensamento XV
"Pesos e contrapesos"


"Pensa comigo: se o símbolo da Justiça é uma mulher cega com uma balança na mão, está ela — a Justiça — mais a contemplar os pesos nela postos do que a própria verdade. É a forma vencendo a essência."

Poema V
"O Arquiteto de Si"


Um homem que pensagrande,
Cuja alma o orgulho nãocomanda.
Sem busca por aplausosvãos,
Nem cede ao medo que do mundoemana.


De olhos na realnecessidade,
Disciplina fora e dentro dolar.
Ouvindo anciãos comhumildade,
Aprendendo dia a dia aquestionar.


Tudo com zelo eprimor,
Como se para Deus fosse amissão.
Pois o Criador é o seuGestor,
Com excelência edireção.


Justiça faz aopartilhar,
Sua parte no fluxosagrado.
Pois sabia que, aoentregar,
O seu vaso seriarenovado.


Das sobras, o chão eleerguia:
Terras, mercadorias evalor.
No equilíbrio de quem sabia o quefazia,
Moldou-se um homemvencedor.

Pensamento XVI
"Tick tock"


"Eis que todo tique-taque é uma contagem regressiva: seja dos dias que se foram, seja dos que virão. A bomba-relógio do tempo insiste: tique-taque."