Rogerio Pacheco
Que Sejamos Memória
Que sejamos presença leve
nas lembranças de alguém,
como quem passa devagar
mas deixa um pouco de bem.
Que um sorriso nosso,
mesmo distante no tempo,
ainda aqueça um dia frio
e seja abrigo no pensamento.
Que o bem que oferecemos
não precise de alarde,
apenas toque, em silêncio,
a alma de quem guarde.
Que sejamos a saudade
que aperta e, mesmo assim, consola,
de uma amizade antiga
que o tempo não leva embora.
Que sejamos o amor
que não se apaga com os dias,
guardado em algum canto
entre lembranças e poesias.
Que sejamos aquele instante
que fez alguém parar,
um sorriso inesperado
que fez um olhar brilhar.
E que sejamos, por fim,
mesmo sem saber, semente boa,
viva dentro de cada um
que um dia cruzou a nossa estrada.
Prefiro a paz à razão
Sou parte dos loucos,
daqueles que escolhem a paz
em vez da razão,
que não disputam versões,
nem se perdem em provas
para convencer o mundo.
Deixo que falem,
deixo que inventem,
deixo que julguem.
O silêncio que guardo
é mais valioso que qualquer vitória.
A paz é cara,
custou noites sem sono,
custou feridas que não se mostram.
Mas, uma vez conquistada,
eu não troco por nada.
Não quero ter razão,
não preciso vencer.
Quero apenas um coração quieto,
uma mente leve,
um canto de serenidade
para descansar em mim.
A vida é curta
A vida não é bela porque resiste,
mas porque se despede.
A beleza nasce no fim,
na certeza de que cada instante
é um sopro único,
um lume breve
contra a eternidade.
Ela vale porque é curta,
porque nos obriga a gastar o coração
sem economias,
a sentir com excesso,
a errar sem medo,
a celebrar cada milagre miúdo
que se esconde nos dias comuns.
É um banquete de instantes,
servido com a urgência do agora,
um convite para sermos inteiros
antes que o silêncio chegue.
E quando enfim chega a hora
de deixá-la ir,
não é perda, não é falha
é apenas o desfecho natural
do espetáculo.
Pois não importa o destino,
importa a travessia.
Não é o porquê,
mas o como.
E quando tudo escorrega das mãos,
quando nada mais depende de nós,
é tempo de soltar as rédeas,
permitir que o destino conduza,
e apenas contemplar, em assombro sereno,
o milagre silencioso
que é viver.
