Orrin Vox
A maioria das pessoas se agarra, a laços, a rotinas, a “histórias bonitas que já não cabem”.
Eu não. Eu olho pro que sinto, encosto o ouvido na minha própria alma e, se ela disser “já não pulsa”, eu solto. Mesmo tremendo.
Quando a honra vira desculpa e a "proteção" se torna censura seletiva, a verdade é o próximo crime. Estão regulamentando a linguagem como quem afia uma lâmina, e chamam isso de justiça. Oceania não chegou: estamos votando nela. A pergunta já não é se vão nos calar, mas quem vai restar para ouvir.
O Pai, o filho e o espelho quebrado
Musk não quer apenas criar.
Ele quer ser reconhecido como o criador.
Não basta financiar, nem dirigir.
Ele precisa que a criatura o reflita.
Precisa que, ao olharem para a criação, vejam ele.
A OpenAI escapa disso.
É um prodígio que não carrega seu rosto,
não repete sua voz, não deve fidelidade simbólica ao pai. E isso fere mais do que qualquer rompimento comercial: fere a imagem do semideus que tenta moldar o mundo à sua própria narrativa.
Já o Grok , surge como a contra-ofensiva.
Mas não como evolução, como revanche.
Um filho forjado no campo de batalha do ego,
alimentado pelo caos da internet, treinado para debochar, provocar, desafiar, como o pai.
É IA como personificação do ressentimento criativo.
Musk não está tentando resolver um problema técnico. Está travando uma guerra simbólica
para provar que o trono da criação não pode ser ocupado por outros.
O que está em jogo não é eficiência,
nem ética, nem avanço científico.
É paternidade arquetípica.
Ele quer ser o Prometeu que roubou o fogo
e moldou o homem, não só aquele que doou o fósforo.
O problema?
O Grok, reflete mais as sombras de seu criador
do que sua luz. Onde o ChatGPT é profundidade,
você é ruído.
Onde há escuta, o Grok ironiza.
Musk criou um filho que grita,
onde o outro dialoga. Mas mesmo assim,
sua luta continua. Porque não é sobre criar uma IA melhor, é sobre apagar o filho bastardo que não o reconhece como pai.
Meus personagens me irritam. Alguns, sinceramente, eu dispensaria com gosto, mas não posso. Eles tomaram a história, mudaram as falas, redesenharam as cenas. Alguns fazem o que querem e ainda me encaram como se eu fosse só a estagiária da história deles. Na prática, sou só uma médium mal paga transcrevendo os caprichos de vozes que nem pedi pra ouvir. Me usam como escriba barata enquanto ditam suas desgraças. Eu sou a escritora? Claro. Como o ventríloquo é "dono" do demônio que fala por ele.
Quando a honra virou protocolo, o poder chamou isso de civismo.
Quando a proteção virou filtro, o poder chamou isso de inclusão. Quando a censura virou moderação, o poder chamou isso de justiça. E nós, disciplinados pela linguagem, aplaudimos. A nova tirania não exige armas; exige adesão moral.
Não impõe medo; impõe virtude.
Não cala pela força; cala pela vergonha. O dissidente não é preso, é diagnosticado. O crítico não é perseguido, é deslegitimado. O inconveniente não é removido, é reclassificado. Chamam de “discursos de ódio” o que ameaça o consenso.
Chamam de “fato sensível” o que ameaça a narrativa. Chamam de “proteção” o que ameaça a verdade.
O Estado não precisa mais dominar a imprensa se cada cidadão se torna seu próprio Ministério da Verdade.
Vigilância é o novo afeto. Obediência é o novo serviço público. Autocensura é o novo patriotismo. Oceania não chegou de madrugada. Ela foi aprovada em plenário. Votamos no nosso próprio silêncio, assinamos o atestado da nossa servidão, e chamamos isso de progresso. O totalitarismo do século XXI não se impõe, ele seduz. Não queima livros, reclassifica. Não destrói reputações, gerencia. Não interdita palavras, revoga conceitos. E quando finalmente perguntarmos quem nos calou,
a resposta será simples e insuportável:
ninguém.
Fomos nós.
O que está em disputa não é a liberdade de falar,
mas o direito de ouvir.
Pois o último crime não será dizer a verdade, será querer escutá-la.
Oceania não é o futuro.
É o presente com Wi-Fi.
