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E se algum dia perguntares
o que vejo quando olho para ti,
não direi apenas beleza.
Direi:
vejo a mulher que desejo,
a mulher que admiro,
a mulher que quero beijar,
a mulher que quero abraçar,
a mulher que quero proteger sem aprisionar,
e, acima de tudo,
a mulher que meu coração escolheu
mesmo sabendo
que amar é sempre
uma maneira lenta
de aprender a sofrer.
Meu quarto enferruja, meus cigarros queimam e o tempo passa — mas alguma coisa em mim ainda se recusa a desaparecer
Talvez eu não esteja bem, talvez nunca tenha estado — mas ainda estou aqui, e por enquanto isso basta.
Há dias em que a solidão não está na ausência de pessoas, mas na sensação de ser estrangeiro até dentro da própria casa
Envelheci no instante em que percebi que o mundo continuava a caminhar enquanto uma parte de mim permanecia parada no passado
Passo as noites lambendo feridas antigas, não porque ainda sangrem, mas porque já me acostumei com a dor.
Jogo cigarros mortos na calçada como quem atira ao chão pequenas versões de si mesmo que já não deseja carregar.
Talvez a pior forma de solidão seja voltar para casa e descobrir que até a própria sombra parece pertencer a outro homem.
Estrangeiro Dentro de Casa
Sinto-me velho antes do tempo,
mal amado, gasto e sem alento;
um homem perdido, sem direcção,
com ferrugem antiga dentro do coração.
O mundo parou quando aprendi a viver,
e desde então não o consigo entender;
as ruas mudaram, as vozes também,
mas algo em mim ficou preso ao ontem.
Passo noites sozinho, sem nada esperar,
lambendo velhas feridas que não querem sarar;
empoeiradas, profundas, escondidas na pele,
como cartas esquecidas que ninguém mais lê.
Atiro cigarros mortos contra a calçada,
vendo a fumaça morrer na madrugada;
cada brasa acesa, cada cinza no chão,
parece um pequeno funeral do meu coração.
Sou estrangeiro no meio da multidão,
um rosto sem pátria, sem nome, sem mão;
e quando finalmente volto para casa,
sou estrangeiro até onde a minha sombra passa.
Tenho vinte e poucos, mas carrego cem anos,
coleccionando fracassos, silêncios e enganos;
o tempo corre, mas eu fiquei para trás,
num mundo que já não me reconhece mais.
E talvez envelhecer seja simplesmente isto:
perder aquilo que um dia julgámos ter visto;
ficar acordado enquanto tudo vai embora,
e conversar com a solidão até nascer a aurora.
Há caminhos que não levam a lugar algum; ainda assim, alguns homens passam a vida inteira tentando descobrir se era o destino ou a estrada que estava perdido.
Aprendi a sorrir diante das minhas ruínas. Não porque deixei de sofrer, mas porque até a tristeza fica constrangida quando percebe que já a conheço pelo nome
Talvez eu não tenha medo de morrer. Talvez tenha apenas curiosidade para descobrir se, finalmente, alguma coisa terá coragem de ficar.
O amor é uma porta curiosa: às vezes permanece aberta durante anos, mas nunca sabemos se fomos convidados a entrar ou apenas esquecidos do lado de fora.
Passei tanto tempo procurando alguém que me encontrasse que esqueci de perguntar se eu ainda estava onde havia deixado a mim mesmo
Não confie demais no meu sorriso. Algumas pessoas usam lágrimas para pedir ajuda; eu aprendi a usar o riso para esconder o endereço.
