Maria da Penha Boina

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Às cinco, o verão despejou seu alívio breve
em fios de água densa, cortando o ar quente.
Um banho de frescor, um instante de sono
que a tarde cansada guardava em sua mente.

Às seis, o silêncio molhado se instalou.
O mar parou em tons de chumbo e de segredo,
como um pensamento pesado, refletindo
o céu que agora era doce, era rosa, era medo.

Que mistério é esse, que a chuva nos deixa?
O temporal passa rápido como um susto,
e no rastro da água, uma cor surpreende:
o horizonte pintado num tom quase injusto.

Rosa sobre o cinza, suavidade sobre peso,
a luz brinca com a sombra que a chuva trouxe.
É o contraste que ensina: após o aguaceiro,
o mundo respira diferente, mais largo, mais doce.

E nós, que testemunhamos a rápida mudança,
guardamos na memória este encontro de cores:
o mar grave e calmo, o céu tênue e terno,
unidos no crepúsculo, como dois amadores

da beleza passageira, que a chuva provoca
e que a luz do ocaso transforma em poesia.
É um momento só, um suspiro da natureza,
que fica na alma, mesmo quando o dia termina.

Nirvana dos escombros

Este nirvana é um abismo calmo,
um silêncio que abafou o grito.
É a raiz que sonda o vazio
na terra árida e tolhida.

Sob a lâmina das cobranças,
cresci em solo de desamparo,
e o colo que a noite pedia
virou pó dentro do peito amargo.

Na adulta que não conquista,
só resta o sabor letárgico
de tentar ser o que esperam
e ainda carregar o fardo.

É o nirvana da decepção,
da alma inquieta e torta,
um céu de nuvens pesadas,
um porto que não aporta.

É raiva que não se grita,
desamparo enraizado.
É buscar um pouco de abrigo
e achar o mundo trancado.

E se paz existe em algum lugar,
não é aqui, não é nesta dor.
É só o vestígio da ressaca
de um amor que não veio, doutor.

O céu e a chama

Havia um céu claro, inteiro,
um azul de infância, sem mágoa,
um tempo certo, verdadeiro,
que a chuva vinha quando era água.

Surgiu uma espessa fumaça,
nascida do metal e da pressa,
que tingiu o azul de desgraça,
e a chuva em ácido desce em praga.

Corrói a folha, a colheita,
ferve os rios, apaga o orvalho,
um verão que nunca aceita
o outono, nem seu trabalho.

E quando a última nuvem se esvai,
nem o azul nem a água voltarão...
Esse céu é o pacto que fizemos.
Aquela fumaça, a nossa ambição.