mariane :3
Chuva de Domingo na Antena
O mundo era em tom pastel
e a tarde durava um mês.
Eu desenhava aviões no caderno
enquanto o ventilador cortava o verão.
Lembro do barulho do clique
ao devolver o fone ao orelhão.
A espera por um sinal de vida
que vinha através de um fio.
Agora o silêncio é diferente.
É um zumbido de tela vazia,
um feed que rolo sem destino,
procurando o cheiro de terra molhada
que anunciava a tempestade.
Escola
A saudade cheira a borracha queimada
do apagador, a giz úmido no quadro.
É o barulho seco da fita cassette
rebobinando com a caneta Bic.
Era tudo off-line, desplugado.
A memória morava nos álbuns de fotos
com cantos grudados,
não em nuvens que evaporam.
Fé
A fé não mora no hino,
mas no martelo que encontra o prego no escuro.
Na mão que aperta a porca enferrujada
enquanto o dia chega atrasado.
É verbo de segunda pessoa:
Faze.
Desfaze.
Refaze.
Não o murmúrio grato pelo pão,
mas os joelhos rachados no canteiro
onde a semente, por fim, se entregou à terra.
Não se fala em milagres.
Fala-se em conserto.
Em pegar o vazamento antes que alague o assoalho.
Em ajustar a antena até a imagem perder o fantasma.
Em amarrar o sapato e caminhar,
mesmo sem destino divino traçado.
Pois o céu não desce em nuvem.
Desce no suor que escorre da testa
e salga o lábio.
No ombro que sustenta a viga.
No silêncio ativo de quem, sem respostas,
ainda assim coloca a panela no fogo
e acende o fogão.
A fé é um músculo.
Atrofia no sofá da repetição.
Cresce no tremor do braço
que insiste em levantar o peso
que hoje parece Deus.
