marcelfranco
Sempre que alguém me causa tristeza ou decepção, sou imediatamente levado a um passado que não gostaria de reviver.
A chuva, um sentimento do céu, desce e canta com a saudade, uma canção líquida que anseia pelo regresso. Ela se dissolve no chão e no mar, completando o abraço da alma do mundo, onde o céu e a terra são, na essência, um só corpo, em um ciclo eterno de separação e reencontro.
A nossa existência é construída a partir da presença do outro. A voz que dialoga, para Bakhtin, é a fonte do ser; já para Sartre, o ser se defende do olhar que o coisifica. Essa contradição revela que o outro é, ao mesmo tempo, a força que nos edifica e a ameaça que nos reduz. É uma dualidade que, como notou Rudolf Otto ao descrever o sagrado, transpomos aqui para a própria relação humana: um mistério que nos atrai e nos inspira temor.
Minha visão sobre a contemporaneidade é de não nos afunilarmos no desencanto. Sinto que a máquina tecnológica e a globalização perversa avançam para extinguir a poesia e a alma das coisas. O simples ato de perceber essa realidade já é uma forma de resistência, que nos permite encontrar e cultivar a beleza nas singularidades da existência.
