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Combatente
A Maya quer me enganar. Por que permite que eu saiba que ela existe? Será mais um dos seus truques? Somos pequenos bonecos diante das ilusões. Para mim a realidade foi construir ilusões. Por isso eu me importo com o pote cheio de canetas e presto atenção em cada taco do parquê. Entre os objetos existe algo. Não é o ar. Existe uma ligação que faz com que brilhem na luz amarela. Eu posso tocá-los com os olhos, posso cheirar uma história. A medida em que eu vou escrevendo os meus órgãos internos se agitam, as vozes agridem os meus ouvidos, a sede repuxa os meus nervos. Alguém que morreu há algum tempo teima em aparecer. Sou eu que estou morto porque vivo de lembranças. E enquanto eu estou aqui teimo em perceber o mundo profundamente, dum jeito que cansa, me faz um soldado, do batalhão da mente, do exército dos insatisfeitos.
Nostálgico
Nesta manhã, eu encontrei uma bergamota bem doce e sumarenta
Arauto do outono, filha de uma árvore perdida na planície
Quem me dera voltar, e depois acordar no que já era
Fazendo disso a atualização da saudade
É preciso, antes, ser medíocre, se atolar no lamaçal, sofrer pelas falhas, caminhar sem rumo, cultivar o desespero. É preciso chorar até que ser sequem todas as lágrimas. Assim, talvez, um dia, se possa recuperar a humanidade que perdemos nesses dias.
O não pensar, a tranquilidade, está atrás do pensamento. O não pensar não se sobrepõe ao pensamento, ele o acolhe.
A ponte do arco-íris
Visitamos em sonho o mundo das formigas, onde não há o sexo. As formigas se recolheram, mas daqui a dois anos vão voltar e, através da ponte do arco-íris, Bifrost, vão chegar à Terra e instalar um reinado de trilhões de seres, aniquilando toda outra forma de vida. Não há escapatória, mas os homens tentarão de tudo para descobrir um modo de sobreviver. As espaçonaves ainda não estão prontas, e a única maneira é lacrar a ponte com aço e lutar.
Uno
Deus nos espanta com o passado,
doce e cruel a mim foi arremessado.
A vida guia a minha pena vibrante
para aqui ficar,
sem ir adiante.
Como mil centopéias,
tenho braços que te abraçam,
e tu, minha velha,
meu coração trespassa.
O ouro me tenta.
A carne me suberge.
A vida que é lenta,
da corrida me perde.
Ao não dizer, não digo.
Minh’alma fere quem pouco entende.
Para falar, um perigo,
ao proferir mudo, à toda gente.
Os físicos e matemáticos querem entender o universo utilizando números. Isso é um fetichismo maluco! Os religiosos querem entender a Deus usando livros e palavras. Isso é um fetichismo insano!
