Any Ceará
Droga Invisível
Descobri-me viciada em uma droga que não se vê, mas se consome como um coquetel.
Ela percorre minhas veias não como dose de soro, e sim em combustão eterna, exigindo presença em cada instante do meu corpo.
É fogo líquido que arde em meu sangue, e ainda assim imploro por mais.
Não existe clínica de reabilitação para essa dependência.E sua abstinência é silenciosa e letal em sua autodestruição.
Resta-me a dúvida: existirá algum antídoto para essa droga invisível e devastadora?
Tu que vieste de outro mundo, despertaste em mim um sentimento sem nome,
não sei decifrar, apenas sei que sinto
algo que parece amar antes de existir, sem começo.
Somos de vias distintas, nos olhando por reflexos distorcidos,
quase um submundo secreto, onde o toque é ausência e o olhar é desejo.
Tão diferentes, tão espelhados,
duas faces do que admiramos, do que gostaríamos de ser.Dois seres de mundos diferentes, conectados por um fio invisível,
inexplicável, porém real na superfície do silêncio.
Tem dias em que a saudade aperta como abraço não dado, toda vez que passo meu perfume , é o que tenho mais próximo de ti, pois veio de ti...
e me pergunto: como posso sentir falta de quem nunca vi?Talvez porque te vejo no silêncio,
te encontro entre as entrelinhas do dia,
te sinto onde não há presença, mas há verdade.
Você conversou comigo numa língua que transcendeu o verbo, onde cada sinal decifrava corpo e alma.
Em mim, tua assinatura persiste como vestígio, uma tela viva, onde a tinta ainda pulsa fresca.
O código-fonte da nossa existência foi compilado na fusão da pele e do destino.
Te amei num nível pré-verbal, num campo indizível.
Tiveste a façanha de me atravessar, fragmentando o corpo, a alma e o coração.
Veio a memória de um tempo não presente, vivido inconscientemente.
Não há racionalização: é um amor não dito, e sim sentido.
Tu és o culpado, dono da minha mente fértil, dos risos bobos, dos suspiros, senhor das minhas fantasias mais audazes, do meu ciúme exagerado, da minha chama ardente, sentimento fogoso que não se acaba.
És dono do meu ódio de amor, dominando meu ser como um mestre sagaz.
Enfeitiçada ao teu encanto, como uma égua domada ao seu dono, assim te declaro culpado, sem contestação, por despertar paixões como uma vampira sedenta diante de um pescoço suculento.
Sem hesitar, neste poema, a ti me entrego. És meu dono, meu único alento. Que o sol queime a pele daquela que a ti confessou seus segredos mais profundos; em tua presença, encontro abrigo em segundos.
