Gilson BIttencourt

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Se os velhos de antes são julgados pelos novos de agora, entenda:
A opinião pode perdurar, o vigor, jamais.

Que ironia!!!! Cansada de explicar; a explicação foi ao divâ.

De costas para o mundo neguei


Neguei meus erros,
meus acertos,
meus medos,
meus fragmentos.


Negava tudo e todos:
meus amores, desamores,
as purezas e os lodos,
os alívios e as dores.


Negava porque era fácil,
fácil cuspir ao mar,
naufragar sem resistência,
não pensar, não remar.


Era uma nau de negação,
um léxico de repulsa,
astrônomo da exclusão,
cartógrafo da recusa.


Mas a vida, em sua confusão,
devolveu-me o resultado:
quem nega toda direção
também termina negado.


Sem saída, sem subida,
entre sombras que tracei,
aprendi, tarde na vida,
o inferno que criei.

A explicação, exausta de explicar, reclina-se no divã.


Seus argumentos, antes inabaláveis, espalham-se pelo chão como páginas desprendidas, cobertas de interrogações e exclamações.


O terapeuta a observa em silêncio.


Diante dele repousa um enigma incomum:


a razão tentando compreender a si mesma.

De mãos dadas caminham,
a virtude e o conluio,
irmãos de sombra e claridade,
esperando o próximo passo.

A virtude sorri,
fala de justiça,
de horizontes limpos.

O conluio cochicha,
traz segredos,
promessas escondidas no bolso.

E juntos, lado a lado,
seguem como quem não escolhe,
como quem sabe que o humano
é sempre mistura,
é sempre ambiguidade.

O próximo passo decidirá:
Quem é a próxima vítima.

Vocês já notaram que, no inverno, a grama é modestamente verde?
Deve ser um aviso aos poetas:
Um olhar minucioso basta.

Uma xícara de café e folhas soltas ao vento;
Uma rosa, um chalé, outono e relento...
Dê sua mão: vamos buscar a paz que perdemos.

O berro.
O ferro.
As bombas que incomodam o repouso.
Escuto. Eu ouço.


A perda da paz,
faminta, voraz...
Será que foi reflexo
do meu grito sem nexo?

Quantas vezes você ouviu alguém dizer:

— Se Deus quiser!

Sem perceber
que tudo depende
do único limbo perceptível:

nós mesmos.