Cicero Lima
Guardamos o deserto mais árido e a fonte mais viva dentro de nós, a paisagem que prevalece é aquela que você decide regar todos os dias.
O anjo e o demônio dividem o mesmo banquete no nosso peito, a força de cada um é decidida por quem você escolhe servir primeiro.
Cuidado com quem divide a calçada com você: às vezes, a pessoa só está seguindo o mesmo caminho, não o mesmo propósito.
Dividir a mesma tempestade e segurar o mesmo guarda-chuva não significa que vocês estão buscando o mesmo abrigo.
Aos olhos dos homens, sua jornada terminou em um sopro de silêncio, contudo, eles agora repousam no santuário do Invisível, um lugar onde a dor é estrangeira e a paz é a língua nativa.
Aos olhos do universo, somos apenas poeira cósmica em um ponto azul, contudo, nossa existência ganha sentido quando colidimos no espaço-tempo, brindando à vida ao lado de quem transforma o caos do infinito em nosso porto seguro.
O homem que já teve a alma forjada na escassez, no luto e na queda não teme o peso de nenhuma batalha, ele já não busca apenas a vitória, ele se tornou o próprio caminho para ela.
Aquele que sobreviveu ao naufrágio material e emocional não aceita menos que a conquista, no pior dos sufocos, ele aprendeu a construir as próprias saídas.
O tic-tac do relógio diminui o ritmo, ecoando como passos lentos sobre a madeira. O olhar se desvia da tela e busca a linha do horizonte pela janela.
A xícara fumaça sobre a mesa, ignorada pelo olhar fixo nas notificações que nunca cessam. Empilhamos minutos como se fossem moedas de um tesouro que nunca poderemos gastar. Planejamos o descanso para o próximo sábado, a felicidade para as próximas férias, a paz para quando a tempestade passar.
Mas a tempestade é o próprio andar dos dias.
Esquecemos o peso da gravidade que nos firma no chão. Esquecemos a textura da mesa sob os dedos, o aroma do grão torrado que se dissipa no ar, o calor que a porcelana transfere para as palmas das mãos. Vivemos na véspera de um futuro que teima em ser miragem.
Faça uma pausa voluntária.
Não ligue o rádio. Não abra outra aba. Apenas sinta o ar cru cruzar a garganta e preencher os pulmões, expandindo as costelas em um movimento que você faz milhares de vezes por dia sem notar. Cada batida no seu peito não é uma contagem regressiva, é a afirmação silenciosa de que você, contra todas as probabilidades do universo, está aqui.
O ontem é um rastro de fumaça, o amanhã, uma promessa sem firma reconhecida. O único território real que lhe pertence mede exatamente o espaço que o seu corpo ocupa neste milésimo de segundo.
Habite-o.
Amadurecer é perceber que a fofoca só ganha vida se você decidir alimentá-la, no ouvido dos sábios, ela encontra o seu fim.
Divida o banquete apenas com quem suportou a escassez contigo a verdadeira aliança é revelada quando os pratos estão limpos.
A noite mais escura nunca conseguiu revogar o decreto da alvorada, e o dia mais claro aceita, em silêncio, o convite das sombras, viver é entender que a tempestade testa nossa raiz, enquanto a calmaria acolhe a nossa cura.
Olha nos meus olhos, ninguém te deu o mapa da mina, e é por isso que o teu caminhar é mais pesado.
Enquanto tem cara que já nasce com o vento a favor, protegido pelo guarda-chuva dos contatos de ouro e com o futuro assinado em folha timbrada, você teve que aprender a andar na tempestade. Você não teve o empurrãozinho de ninguém, não teve o telefone certo para ligar na hora do aperto, nem o privilégio de errar sabendo que teria uma rede de segurança para te segurar.
A verdade é que a tua armadura está arranhada porque você está na arena, e não assistindo do camarote. Não deixa a falta de herança te fazer acreditar que você é menor. Você não está quebrado, você só está construindo o seu império com as próprias mãos, tijolo por tijolo, enquanto os outros ganharam o prédio pronto. O teu mérito não é herança, é cicatriz. E orgulho nenhum se compra com o dinheiro dos outros.
Se for resumir o meu caminho, puxa uma cadeira que eu te explico como os tombos viraram técnica de esquiva e como as madrugadas com o controle na mão viraram gestão de crise.
Se não conhecemos nossas próprias falhas ou antigos vícios, o primeiro passo para sabê-los é o autoexame sincero, pois só corrigimos aquilo que temos a coragem de enxergar.
