betin Rabello

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Minha ausência te blinda de coisas, por amor a ti.

Não trace fronteiras entre o agora e o depois; faça de cada sopro um renascer, e do horizonte, um eterno ponto de partida.

Esqueça o limiar entre as vidas. Deixe que o fim se curve ao início e transforme o destino em nova jornada.

Não apartes o ser entre o ontem e o além,
Nem dividas a alma em mundos distantes;
Que a vida que finda e a que logo vem,
Sejam apenas o passo de novos amantes.

Findas as eras num só pulsar: que a vida não seja abismo, mas o solo fértil onde a alma planta seu próximo caminhar diante da morte.

Quem me confronta com luz, esculpe em mim perfeição; quem me ataca no escuro, apenas sopra a lamparina que clareia meu caminhar.

As pessoas têm a incrível malícia de invalidar o seu empenho.

Na voz de quem sabe, encontro o meu buril meu norte. Na voz de quem erra, descubro o açoite que me faz desviar.

"A crítica justa lapida a alma. A injusta, apenas me empresta as asas da harpia.

O questionamento lúcido é chuva em solo fértil: faz-me crescer. O ruído vazio é tempestade em mar aberto: faz-me presente em caravelas.

Reconheço cada uivo que ecoa em meu peito; não sou caça, mas o silêncio que governa cada passo, de cada fera, que me habita.

Minhas emoções são lobos de pelagem densa e olhar antigo; conheço-lhes a sede e, com o peso da minha presença, transformo o caos da matilha em instinto e ordem permeia a sinfonia.

Sou o território soberano mapeio as trilhas de cada anseio selvagem, pois sei que domar a matilha não é silenciá-la, mas caminhar à frente dela sob razão.

Cada lágrima e fúria têm o nome de um lobo que já tentei expulsar. Hoje, convido-os à mesa do meu interior e sento a mesa com a mão firme de quem aprendeu a ler o rastro da própria alma.

Há uma matilha de em mim correndo sob minha pele. Conheço a face de cada uma no centro dessa vastidão, meu centro permanece imóvel, regendo a força que outros chamariam de medo.

Vigio as feras que me compõem para que nenhuma se perca em mata densa. Dominar a matilha é saber exatamente qual lobo alimentar quando a noite se torna longa demais.

Minha alma é o rastro; minha vontade é lama.

Conheço o peso de cada garra e a beleza de cada uivo na minha vastidão cega.

Deixe a lágrima correr pro chão pra ela virar lama e tu não acabes atolado no teu proprio lamento.

Eu manifesto minha dor pois a conheço para não verter meu interior.