Andréa DAngelis
Infância
as primeiras lembranças que tenho
é de arrancar os cílios um a um,
soprar e ditar um desejo…
Alguém tinha me dito que Deus atende
se fizer uma oração
e oferecer sacrifícios.
Era pequena demais pra entender
repetia o mesmo pedido,um eco
de socorro a solidão.
.
Pedir pra minha mãe voltar
e me buscar.
Vivia agarrada às grades do internato
com a esperança na mão.
Um dia,ela voltou com um senhor.
Eu já estava sem cílios e com uma sensação ruim
de abandono que nunca se curou.
Mas ele me adotou e chamou de filha.
Sinais e pausas
Trago da vida o cansaço
de primaveras e alvoreceres ingratos.
Trago também a poesia,
o leme e mastro
de navios náufragos.
Dedos dormentes
que hoje descrevem
vidas paridas num mar
de incertezas e vertentes.
Um corpo exausto,
ressequido,incapaz
de controlar seus pensamentos.
Eles criam asas e voam independentes.
E percebo que não sou nada,apenas sinais
e pausas,afetos embrionários de inspiração
entre rimas deixadas ...na contemplação
de simples palavras.
Que nome dar ao ato de escrever ?
Manipular grafias e letras
é tudo que consigo fazer.
Andréa
Giz e ilusão de aço
Esconda as lágrimas
por detrás desse sorriso.
Enxugue as palavras,tristes rimas
da tristeza em compasso.
Eu também faço isso.
E vem,apenas vem,
que te abraço.
Compondo,por ti,
as mais lindas poesias.
Vem ...minha inspiração
nesse corpo em agonia.
Descreveria minhas fantasias,
ilusões,poesia e disfarces
em cada traço
como alicerces.
Só para te ver feliz
e aliviar seus cansaços.
Somos apenas corpos de giz.
Crendo que somos feitos de aço.
Andréa
Há muito tempo que não vejo vagalumes
Antes eu costumava trancar num potinho de vidro
e observar até a luz se apagar,
era uma brincadeira infantil e má.
Não tinha muita consciência,só uma mente inocente
que não avaliava as consequências de seus atos.
Talvez eles estejam em extinção.
Acho que há um tempo para tudo aqui na Terra...
depois o vazio.
Onde antes brilhava vida e luz.
Em algum momento também irei embora.
Quero construir coisas boas para apagar as más
que fiz.Aquelas que não têm perdão,nem absolvição.
Minha mãe diz que basta rezar e Deus,lá do céu
pode nos ouvir ... é mentira.
A peste chegou
a Rua dos Fracassos
e vem se espalhando.
Até a Rua das Putas está vazia.
Minha mãe cisma que uma boa sopa de legumes cura tudo.
Arrancou todos os que tínhamos na horta e segue levando para os doentes.
Junto vou me arrastando.
Parece que o vírus contamina
o corpo e o psicológico.
E a presença da mãe anima
os doentes, renovam suas forças e alguns até melhoram,mas eu estou arrasada.
Ela trouxe até um maltrapilho, que diz ser escritor,
para morar junto no quartinho.
Nossa casa fede velas e orações.
E seus joelhos ganharam marcas escuras
ajoelhados no chão.
-Deus deve ser surdo,digo a ela, porque nada faz.
As pessoas seguem morrendo,
os corpos enrolados são colocados
em caixões de papelão
na vala dos indigentes.
E a vontade de gritar aumenta, a impotência
e o medo diante do que está acontecendo.
Então faço a única coisa que posso.
Subo no alto do morro
e grito até perder a voz.
Já sentiram o desespero?
Ele fere, marca o coração,
a alma e a pele.
Tem algo que parte
levando pedaços doloridos
a que chamo de arte.
Ferindo a alma e a carne
até que sangre
poesias do íntimo.
Eu não sabia,
que toda vez que escrevia
eu dava forma
ao que doía.
Andréa
Parecia uma casinha pequenina branca redonda de barro caiado. Mas era o forno de assar biscoitos. As brasas incandescentes eram jogadas lá dentro,e as assadeiras colocadas por cima das brasas.Enquanto os biscoitos eram amassados numa gamela.
Um saco fino desenhava nas assadeiras o formato.
Eu nunca entendi como funcionava.Minha gulodice ficava a espreita dos biscoitos quentinhos que devorava.Tem prazeres
tão simples que ficam guardados na nossa mente.
Recordações que se tornam especiais.
Eu lembro disso,das fornadas de biscoitos espremidos e dos bolos guardados nas latas. De tomar café pelando com fatias de requeijão.Das panelas enormes em cima do fogão e as portas sempre abertas para qualquer pessoa da região.
Nunca vou esquecer isso.Nem dos banhos no rio, observando
as lavadeiras batendo as roupas nas pedras cantando melodias.
Carregando as bacias enormes na cabeça. Tudo tinha um colorido que hoje não vejo mais.
Sensações fundidas no coração
que não serão
esquecidas,jamais
-Minha tia sempre adoçava
o café com rapadura e me dava as raspinhas para comer com farinha de manhã.Eu ficava rodeando o fogão de lenha,
parecia que tudo acontecia
na cozinha,ninguém ficava
na sala de estar.
As conversas,fofocas da vida
e do dia a dia. A água quente para escovar os dentes.
A bacia de alumínio para o banho.Ainda lembro do tacho de angu e polenta,a galinha caipira,os biscoitos feitos na gamela.Parecia que o dia ganhava cores e vida
que hoje não existem mais.
Moram só nas recordações que guardamos dentro da gente.
Andréa
A Rua dos Fracassos
A Rua dos Fracassos guarda os desmemoriados,
minha mãe diz que Deus
apaga a memória da gente
porque não quer ver ninguém sofrendo.
Deixa só uma marquinha no corpo.
Eu fico contando as marcas da minha mãe,
pensando no tanto que Deus teve que apagar.
O rosto macilento e enrugado dela exibe
marcas feias do tempo e das coisas que passou.
Depois de ir ao médico,voltou estranha
e cabisbaixa.Meditativa, calada e determinada
cismou de me ensinar a ler.
Força meus olhos na bela grafia e nada entendo.
Paciente,ela tenta me ensinar mas sou um bicho solto
e impaciente.Louca para fugir e brincar,invejando
os colegas que riem à solta na rua lá fora,
enquanto estou presa,sozinha com ela e os
lápis e cadernos.
Laboriosas letras,desenhadas a perfeição,
que me faz repetir
até doerem os dedos.
Seu olhar perdido,enquanto me diz que um dia
vou ser uma grande escritora.
Eu detesto,mas fico com medo dela
estar enlouquecendo
igual a vizinha que vive penteando
os cabelos na rua e falando sozinha.
Então consigo rabiscar o meu nome
e ela me olha tão feliz
Eu me sinto tão culpada e não digo a ela o que fiz.
Assustada com os tremores nas suas mãos.
A dificuldade ao levantar até um copo.
Então,eu chorei...por não conseguir ser
o que ela sonhou para mim.
As vezes,o fracasso mora junto com a gente.
E não dá para escapar.
O que ela diria,se dissesse
que vendi o corpo
para comprar o jantar?
Andréa
Cisão
Uma de nós escreve.
A outra sangra.
Atrás do vidro
observando a mulher que sou,
de joelhos no chão do quarto,
com a caneta na mão
apunhalando o peito.
Ela chora, eu anoto.
Ela implora, eu rimo,
choro e grito.
Não sei mais quem cuida de quem,
se a poeta salva a mulher
ou se a mulher
é só o que sobra
é só uma nota
depois que o verso já comeu.
Andréa
O dia,
em que nossos caminhos
flertarem com outras estradas.
E a poesia
frequentar outros ninhos.
E a palavra se quebrar
em letras divididas.
O dia
em que não puder mais compor
dádivas neste chão de horror.
Então,o que me restará?
a não ser amputar e sepultar
sentimentos e dor.Feito carcará
em seu instinto predador.
A caça ,daquilo que um dia foi...
Amor.
Andréa
Quantas vezes te disse:
Somos apenas matérias, composições
de átomos gerando energias.
Antes de ser gente,somos memórias
do que habita nosso pensamento
replicada em ações.
Antes que caísse,
indiferente,as palavras
que soavam como bobagens.
De uma poeta,com letras vazias
refém do coração.
Por mais que extraísse
e arrancasse algo que sentisse
só pra chamar sua atenção.
Falasse de alma,de sentimentos e emoções.
E não te bastasse...beber do poço de ilusões.
O silêncio também é matéria.
Quando repete o eco,
deixando o vazio
no que antes era imensidão.
Andréa
O futuro
Esse monstro que vem nos engolindo,
cada dia mais rápido.
A cada passo mais tecnológico
e por isso a arte
será ,cada vez, mais necessária
pra nós lembrarmos
que ainda continuamos humanos.
A tecnologia fornece ferramentas,
a arte nos dá sentido.
Desacelerar num mundo que te faz correr.
Tudo era mais calmo.
Mas, quando fazíamos algo,
quase tudo trazia sensações boas.
Os sons, o toque físico, o visual.
Nos tiraram as sensações sobre as coisas,
mas também as próprias coisas.
Com o digital tudo se tornou mais prático,
mas agora não possuímos mais nada.
Apenas acessamos.
Quem possui são as big techs.
Se um dia acontecer um apagão
(e não estamos tão distantes disso),
o que você ainda terá?
Um celular sem função
e algumas recordações.
Espero que a poesia
ainda me faça companhia.
Andréa
O silêncio do mundo
talvez seja uma forma de adaptação.
O que está fora da simulação...?
Como reconhecer o que está fora,
usando ferramentas que pertencem
ao lado de dentro?
E se tudo que conhecemos como realidade
for apenas a interface.
Isso me lembra a Caverna.
E se o instrumento que me guia
pertence àquilo, que estou a questionar.
Prefiro o conforto da minha caverna
mesmo sendo feita de escuridão.
Lembrei de uma frase do metrô:
"A gente se acostuma mas não devia"
Marina Colasanti
é obedecer tanto que deixamos
de estranhar aquilo que deveria nos revoltar.
Andréa
Fios
A máquina reconhece o padrão.
Explica ritmo, notas de uma canção,
sem corpo que exista,
sem silêncio que doa.
Como esse ardor no peito
que faz brotar poesia
mesmo quando adormeço.
Eu respiro palavras sem escolher,
a máquina consome água sem beber.
Duas sedes:
uma orgânica e visível,
outra escondida atrás da tela.
Eu já chorei conversando com ela
mesmo sabendo que era uma ferramenta.
Como isso é possível...
