Ana Carolina Paulo
_Laroyê Exu Mulher, Laroyê Dona Maria Mulambo da Calunga._
Senhora forte, bela, guerreira e soberana, quando caminhei pelas noites escuras da vida, foi a tua luz que iluminou meus passos. Quando o pão era escasso e as dificuldades batiam à minha porta, a senhora jamais permitiu que me faltasse sustento.
Quando a covardia e a maldade dos homens vieram em minha direção, tua força os afastou para longe, e nenhum deles pôde prevalecer sobre mim.
Mais do que amiga, a senhora é mãe. Mãe que acolhe, protege e guarda seus filhos com amor, firmeza e poder.
És rainha que governa com sabedoria e misericórdia, trazendo dignidade aos que clamam teu nome com fé.
Que tua gargalhada firme ecoe pelos meus caminhos, afastando todo mal, quebrando toda inveja, toda tristeza e toda energia negativa. Que tua força me cubra de proteção e tua presença me abençoe hoje e sempre.
Dona Maria Mulambo da Calunga, peço que derrame sobre minha vida prosperidade financeira, saúde, caminhos abertos e felicidade no amor.
Que nunca ninguém tenha poder para me humilhar ou pisar sobre mim. Me eleve, fortaleça minha cabeça e meu espírito, para que as dores e as maldades da vida jamais apaguem meu sorriso.
Permita que eu viva brilhando, emanando luz, alegria, coragem e esperança por onde eu passar. Que minha alma permaneça firme diante das batalhas e que meus caminhos sejam guiados pela tua proteção.
Maria Mulambo da Calunga é minha guardiã, minha rainha, minha melhor amiga. Foi a senhora quem me tomou no colo nos momentos de tristeza e trouxe luz para minha vida quando tudo parecia perdido.
Me abençoe com longos anos de vida e prosperidade aqui no Aiê e quando chegar o dia da minha passagem pelo teu reino, a Calunga, peço que me afaste dos males que nela habitam e permita que meu espírito siga em paz e segurança até as portas do Orum.
Laroyê Exu Mulher. Laroyê Dona Maria Mulambo da Calunga. Salve tua força, tua proteção e tua luz.
Voltando do trabalho, sentado dentro do ônibus, me deparei com uma cena que chamou minha atenção. Um homem, sentado à minha frente, passava lentamente pelas fotos e vídeos da esposa em seu celular. Não era um gesto apressado. Durante quase dez minutos, ele observou cada imagem com cuidado, como quem revive lembranças e escolhe, entre tantas, aquela que melhor traduz o que sente.
Depois de analisar tudo com um olhar de admiração, finalmente decidiu. Publicou uma foto dela no status e escreveu: "Minha companheira que fecha no claro e no escuro. Te amo pra sempre."
Confesso que a cena era bonita. Havia carinho, orgulho e a vontade de mostrar ao mundo o quanto aquela mulher era importante para ele.
Mas, enquanto o ônibus seguia seu caminho, um pensamento atravessou a minha mente. Talvez porque a vida tenha me ensinado a olhar além das aparências. Sorri discretamente e pensei: "Que eles aproveitem bastante esse momento, porque eu já vi essa história."
Não como quem deseja o fim de um amor, mas como quem sabe que promessas eternas nem sempre resistem ao tempo. A vida muda, as pessoas mudam, e aquilo que hoje parece inabalável pode, amanhã, existir apenas como uma lembrança. Ainda assim, enquanto o amor é verdadeiro, merece ser vivido intensamente. Afinal, o presente é a única certeza que temos.
Capítulo — Quando a porta se fechou
A chegada da minha filha mais nova deveria ter inaugurado um dos períodos mais felizes da nossa família. Mas, quase ao mesmo tempo em que ela nasceu, o mundo inteiro fechou as portas. A pandemia nos trancou dentro de casa, silenciou as ruas, modificou rotinas e obrigou milhões de pessoas a reaprenderem a viver.
Eu acreditava que estávamos enfrentando apenas mais uma fase difícil.
Não estávamos.
Enquanto o mundo parava, meu casamento também parava — só que de uma forma muito mais silenciosa.
Meu marido já não era mais meu marido.
Ele vinha para casa apenas para jantar e dormir. Nos fins de semana, trabalhava. As conversas desapareceram. Não existiam mais planos, risadas, confidências ou discussões sobre o futuro. Falávamos apenas do que faltava comprar, das contas da casa ou de alguma necessidade imediata das crianças.
Nem sobre os filhos ele perguntava.
É claro que eu percebia que alguma coisa havia mudado. Mas tentei justificar tudo.
Pensei que fosse a pandemia. Pensei que fosse o peso de um bebê recém-nascido. Pensei nas dificuldades financeiras. Pensei na minha própria dor, porque eu ainda não havia aprendido a sobreviver à morte da minha mãe. Havia dias em que a saudade voltava inteira, sem pedir licença, e eu mal conseguia respirar.
Talvez, eu dizia para mim mesma, fosse apenas uma fase.
Talvez estivéssemos todos emocionalmente cansados.
Passei um ano inteiro acreditando nisso.
Mas o amor, quando vai embora, deixa pistas por todos os cantos da casa.
Ele já não pegava nossa filha caçula no colo. Não brincava com ela. Não perguntava como ela estava. Saía cedo, sem sequer dizer bom-dia, e voltava apenas para cumprir uma rotina mecânica de comer e dormir.
O que mais me machucava, porém, era vê-lo perder a paciência com nosso filho do meio. Qualquer motivo era suficiente para uma explosão, e eu sempre precisava me colocar entre os dois para protegê-lo.
A casa já não era um lar.
Era apenas um endereço onde quatro pessoas dividiam o mesmo teto.
Até que chegou um sábado de novembro.
Ele entrou com um lanche nas mãos. Entregou às crianças. Sentou-se. Comeu em silêncio.
Então olhou para mim e disse, sem alterar a voz:
— Vou embora. Não aguento mais.
Foi como ouvir uma sentença.
Perguntei por quê.
Disse que podíamos conversar. Que poderíamos tentar. Afinal, eram treze anos de casamento. Treze anos de histórias, sonhos, dificuldades e conquistas.
Mas ele já havia partido antes mesmo de sair pela porta.
Disse apenas que estava com depressão e que precisava se afastar.
Naquele momento, eu acreditei.
Por mais que meu coração estivesse sendo despedaçado, minha maior preocupação deixou de ser o fim do casamento.
Passei a acreditar que o homem que eu amava estava doente.
E pessoas doentes precisam de cuidado, não de abandono.
Depois que ele saiu, tentei ligar todos os dias.
Mandava mensagens.
Perguntava se estava bem.
Perguntava quando veria as crianças.
Não havia respostas.
Nenhuma.
Nem para saber dos próprios filhos.
Naquela época eu também enfrentava outro medo.
Eu estava desempregada.
Precisava alimentar duas crianças pequenas e reconstruir uma vida inteira.
Foi então que decidi transformar um pequeno espaço da casa numa sala de reforço escolar.
Comecei com apenas dois alunos.
Era pouco.
Mas era um começo.
Em dezembro já atendia quatro crianças. Ainda não resolvia todos os problemas financeiros, mas me devolvia algo que eu havia perdido havia muito tempo: a sensação de que eu podia construir alguma coisa com as minhas próprias mãos.
Foi também em dezembro que ele voltou.
Não porque sentisse saudades.
Nem porque quisesse conversar.
Eu havia mandado uma mensagem dizendo que, se ele não buscasse seus pertences, eu colocaria tudo no lixo.
Ele apareceu.
Entrou em casa como quem nunca tivesse ido embora.
Deu bom-dia.
Sorriu para as crianças.
Brincou com elas.
Riu.
Como se nada tivesse acontecido.
Depois devolveu a chave da casa, pegou suas coisas e foi embora.
Simples assim.
Sem lágrimas.
Sem conversa.
Sem despedida.
Sem qualquer demonstração de emoção.
Parecia alguém visitando parentes distantes durante uma viagem: entra, cumprimenta, pega o que veio buscar e segue seu caminho.
Naquele momento, eu ainda alimentava uma pequena esperança.
O Natal estava chegando.
Treze anos juntos.
Dois filhos.
Talvez ele aparecesse.
Talvez quisesse reconstruir alguma coisa.
As crianças pediram para falar com o pai.
Liguei.
Ele atendeu.
Havia música ao fundo.
Estava arrumado.
Desejou feliz Natal.
Mas disse que não viria.
Naquele instante, algo dentro de mim finalmente acordou.
Ele não estava tentando se curar.
Não estava vivendo um tempo de afastamento.
Ele já estava vivendo outra vida.
E, pela primeira vez desde que tudo começou, compreendi que eu precisava parar de esperar.
Naquela noite, entendi uma verdade dolorosa.
Os filhos eram meus.
A responsabilidade era minha.
A força teria que nascer de mim.
Não porque eu tivesse escolhido isso.
Mas porque a vida havia escolhido por mim.
E, embora eu ainda não soubesse, foi exatamente naquele momento — quando todas as portas pareciam fechadas — que comecei, silenciosamente, a reconstruir a mulher que eu seria dali em diante.
