AlmaViolada
Elogiar a escrita é um ato íntimo. Mais íntimo que um toque, mais revelador que um olhar. Porque a escrita é a alma em código. Cada frase, cada pausa, cada palavra escolhida a dedo, tudo isso é o poeta a nu, sem máscara, sem defesa. Elogiar essa nudez é dizer: ''Eu vejo a tua alma. E acho-a bela.'' Não há elogio mais sublime. Não porque seja raro mas porque é verdadeiro. Quem elogia a escrita não elogia o que o mundo pode ver. Elogia o que o poeta escondeu no meio das palavras, esperando que alguém, algum dia, encontrasse.
Ela me chama de anjo. Mas quem brilha com auréola é ela. Eu apenas recebo o brilho e reflito. Ela diz que me adora, e eu a adoro de volta. Não há cálculo nessa conta apenas a certeza de que o afeto que se dá e se recebe na mesma medida é o único que realmente sustenta. Ser mimado por ela é uma espécie de aprendizado: a de que posso ser frágil, posso ser cuidado, posso ser o centro de um afeto que não exige que eu seja perfeito. E nesse aprendizado, descubro que anjo não precisa de asas. Às vezes, basta ser visto com olhos que te elevam.
O fascista que usa a Bíblia para condenar o mundo e justificar os próprios atos, enquanto mantém amantes e julga as minorias com a ponta dos dedos sujos de hipocrisia e sangue dos oprimidos. O comunista que critica o capitalismo com a escova de dentes marxista na mão, enquanto o iPhone de última geração brilha no bolso de um salário que 25-30% da população Brasileira nunca verá. Ambos são o mesmo teatro. A mesma farsa. A mesma roupa de ideologia vestida em corpos que nunca a suaram.
Amar-te por todos os motivos existentes inclui os que ainda não aconteceram. Os motivos que ainda não reconheço são como sementes que o futuro guarda no bolso: irão germinar com o tempo, com os dias, com os gestos que ainda não fizemos. O amor que sinto já é inteiro, mas também está em expansão como um universo que cresce mesmo quando parece completo. E essa confiança no que virá, no que ainda não vi, é a forma mais pura de entrega: a de quem ama não só o que és, mas o que serás.
O primeiro amor é uma porta que se abre. O segundo, uma porta que se fecha com o corpo. Eu sou a porta que arrancaram das dobradiças e usaram para bater em alguém. Sou a junção do que não cabe em verso de amor e a raiva que virou melodia, o peso que virou refrão, a alma que só encontrou paz na distorção de uma guitarra. Uns amam deixando ir. Outros, morrendo juntos. Eu sou o que sobrou depois que os dois desistiram.
Se é descuidado, é um porco. Se é cuidado, é uma princesa. Não há meio-termo que escape ao julgamento. E aquele que apenas quer viver a sua vida, sem se importar com o que os outros pensam da sua barba ou do seu perfume, é arrastado para uma guerra que não pediu. As mulheres que fazem essas críticas muitas vezes buscam atenção que não têm; os homens que as repetem são apenas eco de uma masculinidade frágil que precisa de aprovação. E o homem real aquele que existe para além dos rótulos fica preso no meio, a ser esmagado por expectativas que nunca pediu.
"O bem e o mal não são essências são respostas. A dor pode tornar o anjo em demônio, e o amor pode fazer o demônio lembrar-se de que um dia foi anjo. O que separa os dois não é uma linha fixa, mas a forma como cada um, em cada instante, responde ao que a vida lhe oferece. O bem não é permanente, e o mal também não. O que fica, no fim, é a pergunta que a alma se faz: 'O que farei com o que me fizeram?' E a resposta, essa, é o verdadeiro fio invisível que decide."
As palavras estão decoradas na ponta da língua, como a tabuada que se repete sem se pensar. 'Se você se cercar de pessoas bem-sucedidas, o sucesso vira.' Bonito. Prático. Falso. Ilusão confortável... O sucesso não é vírus que se apanha por proximidade. Não se contrai por estar na mesma sala que alguém que tem mais dinheiro ou mais visibilidade. Se assim fosse, os mendigos que dormem à porta de prédios luxuosos seriam milionários. O que vira não é o sucesso é a ilusão de que, por estares perto, algo te vai cair no colo. E enquanto esperas, a vida passa. E os outros, os que não decoraram como viver nesse conforto frágil e enganoso, constroem a sua sorte com as próprias mãos.
