Dolandmay Walter
DAMA DA NOITE
Pousam em mim os teus nobres desejos:
Mentiras de uma esplendorosa paixão,
Pois que nada sente o teu vil coração,
Dentre os teus falsos e eloquentes beijos.
Pousam em mim os teus rústicos ensejos
Na espera dos meus sentimentos vãos:
Tais que sinto da tua vultosa ilusão,
Mesmo vazia, dentro d'alma, eu almejo
O teu corpo de escultura, nú e quente,
Aos gritos da tua voz que não sente,
Que murmura, que excita, que é chama!
Pousa em mim a tua falsidade inteira,
"Cheia de amor," por te sonhar verdadeira,
Que a minh'alma te beija, e ama...
RENÚNCIA
Não permita que eu te esqueça, querida!
Os meus sonhos vão além de tudo...
Tuas lembranças se ofuscam, contudo,
Não há de me existir outro amor nesta vida!
Minha alma está a vaguear ensandecida
À procura do teu coração... Desnudo,
Eu a vejo em lágrimas, em solidão, e mudo,
Eu a vejo entre os túmulos da partida...
Não permita que eu te abrace na escuridão
Para que eu possa te amar sem ilusão
Entre os meus sonhos, sem que seja dor
Roga-me por sentimentos entre as estrelas...
Dos azuis, somente em ti, irei vê-las
Em cores lindas a refletir o nosso amor.
ESSE TAL DE AMOR
O quê poderá ser mais por encanto
que esse que está a bater a pele em frescor,
ao vento no entrar a janela; nem dor
poderá continuar a doer, mais e tanto
por esse que resiste a maldade, o pranto,
a tristeza, a ilusão, de brotar em flor;
num jardim imenso que ressurge a esplendor
desse notado sentimento, em todo canto
que eu o vejo, à lua, ao mar, em seu poder
nos livros de outrora, e cheio de prazer
em toda alma, a qualquer e todo coração
tanto mais que o meu, está a encontrar,
a toda gente que é sol, que é ar,
que esse tal de amor a me encantar à solidão?
© Dolandmay Walter
NADA!
Andas tão longe de mim. Desvairada da dor...
Sentes o meu abraço, sentes o meu beijo;
De sorrisos se transborda, sentes o meu desejo,
Vês-me, mas não enxergas o meu amor!
Pareces o quê? A lua? O sol? Não tens fulgor!
– Transbordo a alma ao seu almejo...
Não tens corpo em mim, apenas lampejos
Aos teus olhos de infinito, sem esplendor...
Parecia-me dos céus a mais bela estrela...
Não és nada! Apenas eu estou de vê-la...
És tu, de minha cobiça-louca, a imaculada!
Serás por um instante de meu tremor o arder?
Já não acredito em vida, ao meu querer;
Que tão longe de mim, amor, tu não és nada!
© Dolandmay Walter
MEU SONETO
As minhas lágrimas são da arte
E a minha solidão é do amor.
No meu poder tem o disfarce;
Dos meus sorrisos saem a dor...
No meu coração tem o enlace,
Na minh'alma esplendor...
E na expressão de minha face
Se faz brilhar todo o fulgor.
No meu silêncio tão profundo
Exalto a vida a todo mundo,
Levo às costas todo o poder...
Do maior amor sou dependente;
De mentiras vivo a toda gente,
Da ilusão, profano o meu viver...
© Dolandmay Walter
