As Equações do Amor
O amor não é um teorema a ser decifrado, mas um abismo a ser saltado, a tentativa de aprisioná-lo na grade da razão é o ácido corrosivo que desfaz a sua
mágica em pó.
O amor não é esmola, mas uma enchente selvagem que transborda a própria margem, a súplica por afeto não é um ato de amor, mas a confissão faminta
da carência.
O amor-próprio é o alicerce mais antigo da alma, o único lar seguro e o primeiro ritual ao cruzar essa soleira é o perdão visceral que demola todas as acusações.
O amor de Deus é o único que não se intimida com a minha escuridão. Ele entra onde ninguém mais ousa tocar, ilumina onde nem eu quero olhar. Seu silêncio não é ausência, é cuidado que respira devagar. E nesse respiro encontro a força que não sabia possuir.
Falar de amor virou ato de contrabando entre a dureza do mundo. Levo-o escondido no peito como quem leva pérolas em bolsos rasgados. Quando entrego, minhas mãos tremem, não por medo de perder, mas por saber que a dádiva pode curar lugares onde o sol não entrou.
A Bíblia é o único livro de amor em que o protagonista escolhe dar a própria vida pelo vilão da história.
Em partida, o amor não vai embora de uma vez, ele se despede devagar, deixando a casa cheia de ecos, porque algumas ausências continuam morando na gente muito depois do adeus.
O amor nasce simples como estrada de chão, cresce entre olhares contidos e promessas impossíveis, e sofre calado porque nem todo sentimento pode atravessar a cerca que separa o coração do destino.
O amor entra em silêncio, como uma soprano antes do primeiro agudo, e de repente tudo em nós aprende a doer bonito, como se o sofrimento fosse
apenas outra forma de cantar.
O amor que me cura não exige perfeição. Ele pede apenas coragem para chegar com as mãos vazias. Acolhe os termos e as condições sem contrato. E na simplicidade do gesto, tudo se transforma. Porque amor que exige pouco é o que mais dá.
Guardo um amor que perdeu o destinatário. Como não teve onde pousar, virou peso, virou verso e, por fim, virou parte de mim.
O amor, quando chega para alguém como eu, não entra pela porta da frente com flores, mas infiltra-se como a umidade nas paredes, gelando os ossos antes de se tornar parte da estrutura. É uma dor bonita, um jeito de sofrer acompanhado por alguém que também tem medo do escuro.
Eu, eu mesmo, sou o que apago as tuas transgressões por amor de mim e dos teus pecados não me lembro.
O Quase Perfeito do Amor
Eu perco o ar ao falar de amor.
Você deveria ceder antes.
Tivemos paz, vivemos um romance.
Nada que envolva o amor é supérfluo.
Aquele nosso quadro fala —
ele narra a sujeira do desamor
e mostra que só o amor prospera.
Era um laço que jamais sangraria.
De mãos dadas, éramos bem-amados.
Sou um homem, mas, às vezes,
carrego pensamentos que julgo femininos, talvez eu esteja tomado
por uma ideia de amor mais que perfeito.
Eu só quero ser amado.
E ainda me choca pensar
que alguém de confiança
possa estar te traindo.
TRAVESSIA
Chorei o amor que se foi
com a certeza de que já não me cabia.
Não por falta de espaço,
talvez por falta de diálogo,
ou por culpa minha.
Mas como achar culpados
numa via de mão dupla?
Era mais descompasso.
Um passo errado
e cruzamos a contramão.
Depois restou
a mania estúpida
de culpar o coração.
Chorei o amor que se perdeu
atravessando a rua no sinal vermelho.
Não olhei pros lados.
Queria chegar
ao outro lado mais cedo.
E do outro lado, só havia eu.
