Aparência
Tem dias em que a gente não se reconhece no espelho.
Nem pela aparência, mas pelo cansaço que os olhos carregam.
É nesses dias que eu lembro: não preciso ser forte o tempo todo, só verdadeira comigo.
Sou um observador, e é óbvio que percebo as pessoas que vivem de aparências.
Procuro compreender o motivo pelo qual alguém cria uma realidade irreal — algo que chamo de pleonasmopsicótico (adjetivo criado por mim) —, pois o indivíduo passa a viver na ilusão de que seu modo de ser ou de viver trará benefícios reais para si.
E, nesse engano, acredita que todos ao redor são incapazes de perceber que aquela performance é falsa — uma simples ilusão que sustenta o próprio vazio.
As pessoas não buscam o justo, buscam o belo. Vivemos num tempo em que a aparência vale mais que a essência, em que a virtude virou máscara e o vício ganhou charme. Ninguém quer a verdade, querem o socialmente aceito, o que não incomoda, o que cabe nas frases prontas Chamam de bem o que agrada, e de mal o que revela. Porque a verdade expõe, o belo disfarça. E quase todos preferem continuar bonitos, a ter que encarar o quanto estão vazios.
A visualidade da aparencia é bebida como o ultimo copo d'água.
É uma luta constante para mostrar ao outro uma imagem que você nega a si mesmo.
A visualidade da aparência é querer de forma forçada mostrar para o outro uma imagem camuflada, onde a real está escondida negada por si próprio.
Sua aparência desleixada aponta para a vida que se esvai em seu interior. Grita, pede socorro, mas sua voz é inaudível. Sua dor é invisível, intransferível. No olhar, o canção do labor diário, da rotina para manter as contas pagas, da falta dos amigos que se foram juntos com seus afazeres domésticos. Da festa que cessou por falta de alegria. Por falta de amor. Por falta de ser amada, calou -se. Morreu por dentro, sua alegria, só esqueceram de enterrá -lá.
Confia no Senhor, que não se deixa enganar pelas aparências, mas conhece a essência verdadeira de cada alma. Deus expõe as intenções dos que se aproximam de ti e guia teus passos em segurança.
Manter as aparências pode fazer você pagar um preço muito alto. Preço esse que não vale a pena correr o risco, porque a aparência traz para quem a vive três prisões, infelicidade absoluta, a falta real de paz e o abandono total de uma vida sem abuso e história tranquila.
Aquela pessoa que não busca aprovação alheia, não se ilude com aparências nem confronta quem vive cuidando da vida dos outros, não é antissocial, é alguém que conquistou, com o tempo, a paz de espírito e a verdadeira liberdade.
Ainda me resta um pouco de orgulho, o suficiente para não confundir emoção com aparências, nem razão com inocência, a ponto de parecer um bobo. Ainda conservo intacto o meu caráter moral.
Segurar a porta aberta para sustentar uma aparência caída e manter estável o que não convém, jamais ira conhecer a felicidade.
Por que insistir em chamar de amor aquilo que se esconde em aparências dentro de um porta-retrato? O que ali viveu já morreu, está enterrado junto com a vergonha esquecida. Fingir é enganar a si mesmo, é viver uma realidade sem alma, enquanto o verdadeiro amor habita apenas na liberdade do ser.
Eu sei que não me amas,
Mas tua aparência de inocência não me engana.
Não fui perfeito, nem desonesto,
Mas amar a mulher errada — não vale o protesto.
Tudo se perdeu num só instante,
A segurança do amor se fez distante
Mais uma vez,
Antecipei meus pedaços entre a dor e a fé.
Por trás da cortina, quem me amava
Tramava sonhos e esperava
Ver-me só, na solidão que restava.
Ainda assim, creio que o céu está comigo,
E que um barco bem remado encontra abrigo.
Retoma a rota, segue a jornada,
Na direção sonhada —
Sem jamais naufragar.
