Amor Recente
Já entreguei meu afeto, já me doei… Hoje, sou frio, um escudo erguido para sobreviver. Doar amor a quem não valoriza é soprar feridas abertas, não deixá-las cicatrizar. Esse gelo me protege, mas deixa uma saudade aguda
do calor humano que um dia foi natural… e hoje me trai em julgamentos e abandono.
O amor em excesso não escorre, não transborda, ele pesa como um lençol molhado sobre o peito. Afeto demais vira névoa densa, cobrindo meus passos, roubando o ar onde eu queria aprender a respirar sozinho. O que era abraço vira amarra. O que era cuidado vira cárcere disfarçado de zelo.
Como posso amar alguém verdadeiramente, sendo que nem amor próprio eu tenho?
Talvez o amor ao outro comece quando eu aprender a olhar para dentro, com a mesma paciência e cuidado.
O amor-próprio não é um ponto de partida, mas uma construção que cresce, a cada gesto de cuidado e compaixão comigo mesmo.
O amor é um cavalo xucro, selvagem, ferido, em fuga. Não teme o outro, teme ser preso. Mas o amor verdadeiro chega sem rédeas, espera em silêncio, acolhe sem moldar. E o cavalo, enfim, permanece. Não porque foi domado, mas porque, livre, escolheu confiar, escolheu ficar.
O amor, em sua natureza mais crua, é um paradoxo temporal e emocional, sua verdadeira dimensão só se revela na experiência da perda. Enquanto presente, é banalizado pela rotina, negligenciado pela falsa segurança da permanência. Somente na ausência é que suas camadas mais profundas se tornam perceptíveis, como uma arquitetura invisível que só se desenha no vazio.
ENCONTROS
O amor, reflito,
apesar dos conflitos,
conduz-nos como os raios
de infinitos versos.
Fazer amor, repenso,
apesar do repouso
merecido entre espaços
de finitos verbos,
desnuda a fonte
primitiva de cada ser.
Abrem-se botões... de flores.
Desnudam-se ... corpos e estrelas
como entre versos representados por poemas.
É a poesia que se esvai em cada gesto,
rito do animal frente sua alma.
Comovem-se corpos e muitos astros
desta Via-Láctea representante de infinitos mares.
Os olhos, bem atentos, espreitam outros olhos
buscando a poesia contida em cada ato.
Jan/1993
PARTES ARRANCADAS DE MIM
(amor integrativo)
Parte complementar arrancada de mim...
Vivi como mutilada
Hora sem mãos, pés ou cabeça
Faltando-me de mim
Ah, essa parte arrancada do outro em mim...
Levada embora
Jamais retornada
Faltou-me a boca perfumada
Nunca mais beijada, nem outras encontradas
Inigualável em intimidade e emoção
Ah, essas partes arrancadas,
Multiplicadas,
Nunca preenchidas
Busca que vem de longe, de mares não navegáveis
Percebidas cedo
Encontradas
Depois perdidas em múltiplas etapas
As, essas partes do outro arrancadas de mim...
Faltas multiplicadas ao infinito
Nunca mais apartadas, nem retornadas
Ah, que falta sinto delas em mim!
2024
ELEGIA AO PRIMEIRO AMOR
(Apaixonado, arrebatadoramente apaixonado. Amante confesso e condenado)
Chuva.
Tarde.
Pôr do sol.
E versos morenos sobre a areia.
Calor.
Noite.
Lua cheia.
E um banco de jardim com dois amores.
Adolescência.
Descoberta do outro.
Beijo das mãos.
Toques de lábios carnudos.
Desnudos, os corações se apaixonam.
Como é possível?
primeira tarde
primeira noite
alma ansiosa
amor platônico
tomar conta de tudo?
Instalar-se para sempre
“feito um posseiro”
dentro do meu mundo!
(jan./1992)
BALANÇO DOS ANOS 40
Recebi a vida sem pedir nada.
Cresci.
Aprendi a exigência do amor,
a impaciência da crise.
Perdi luz.
Enfraqueci ideais.
Conquistei planos.
Queria um aeroplano
vivaz e transparente
para me levar pelos tempos
(presente, futuro, passado)
Em busca de mim,
em busca do outro.
Da quietude dos campos,
com cavalos pastando
entre fontes inquietantes
de vilas perdidas.
Borbulhantes,
sadias,
por entre mil romarias.
O coração entre preces, amor, fantasias.
O cotidiano quebrado
como a semente do milho
caída na terra,
germinando,
gemendo a cada ciclo
por vida.
(abril/ 1992)
O AMOR E O TEMPO
(ao reencontro de um amor verdadeiro, apesar do tempo e das distâncias)
O amor chega.
Instala-se
Feito água forte sem pegadas.
Cativado,
Permanece,
Impávido!
Anos e mais anos-luz se passam
E o amor permanece como semente
Numa sucessão de infindas fases e de lamentos.
São colheitas de vários e gestados frutos
Diuturnamente expelidos dos contatos.
Opa, o amor vai além disso,
das comunicações e dos tratos feitos
Pois o amor, enfim cativo, mas nunca escravo,
É eternamente oferecido em pensamento!
São contatos que não precisam ser presentes
Posto que o amor não necessita de presença física,
É gratuito,
E atua fora do espaço-tempo.
É grão, é sêmen, princípio, causa
Efeito das origens e dos finais dos tempos.
Ai o amor...
Translúcido e transparente,
Permanece, para todo o sempre, sendo
Oferecido de coração a coração e em pensamento!
(2024)
Amor-semente
Sementes do amor frutificado
Ficaram nas gavetas de minh’ alma,
Adormecidas.
Longe da luz,
da água e de nós, secaram,
Ficaram lá tão esquecidas.
“De repente, não mais que de repente”
Vento forte, vindo do Norte, arrebatou-me inteira
Revirando minhas gavetas
Pondo para fora as tais sementes.
O Sol, iluminando-as por inteiro
A chuva, lavando-as com carinho
Levou-as para dentro de meu coração-ser.
Lá, ditas sementes, agora
Brotam em busca de novos frutos
Acompanhadas por seus ais, ais, ais...
Nenhum amor- semente é desperdiçado.
Por respeito às suas origens,
Mantém-se firmes e,
A qualquer Sol,
Levantam-se e germinam!
2024
Despertar
Um dia, deixei hibernando o amor que me servia
De guia, encantamentos e prazeres.
Hoje, desperta pelas águas mansas do futuro,
Compadeço-me por ter dormido tanto
Sem abrir meus olhos à verdade!
Entorpecida pelo dia a dia que me sugava e consumia,
Inativa, busquei viver por meio
De mil afazeres e enganos violentos.
Hoje, desperta pelas águas mansas do futuro,
Agradeço a oportunidade do reencontro e do resgate!
2024
Descoberta do amor
(inspiração pós adolescente)
Nas reentrâncias imaculadas que se findam,
Não vi nada...
Rodei pelos caminhos atormentada,
Até que me depus adormecida.
Vieram mundos iluminados por luz límpida
Que transportaram, sem receio, você para mim.
Um outro ponto santo me transformou em amante
Para, então, sorrirmos um sorriso eterno.
Vê que mundo brando há em mim,
E quão importante é viver agora?
E quão necessário ter as mãos assim tão postas?
Não existe nada de irregular em nós.
Nem vantagens e nem martírios!
Só um grande amor a nos unir para sempre.
1971
Parece que é presciso amar pra descrever sobre o amor, grandes corações bem-aventurados tem os homens que sabem amar e tem alguém para amar. Pra qualquer um deles minha inveja, sou apenas um miserável, pois de que modo a inveja se tornará reciproca? Grandes corações que sabem o limite de amar apenas um aguém, enquanto eu sento ao relento esperando uma esmolinha, ela é apenas uma oportunidade pra escrever algo bonito. Mas eu também conheço o ódio, algo alto, forte e que as vezes me entrega umas centenas de palavras.
Faz de mim a fúria
Faz de mim fúria
Faz-me fúria
Enfureça-me
Enfureça
Fúria
Amor é um sentimento que nos faz sonhar e ao mesmo tempo, acordar dentro desse mesmo sonho. Levando-nos a uma felicidade contínua e arrebatadora, independentemente da dor que possa surgir.
Pureza é inerente ao Amor; na humanidade uns sentem com o coração e outros sentem o próprio coração.
