Ameniza minha Dor
Exibo cicatrizes invisíveis que alteram minha postura, pesam nas minhas escolhas e ditam o ritmo da minha caminhada.
Às vezes, sento-me diante de Deus e não digo nada. O silêncio é a única oração que minha exaustão consegue formular.
Minha mente é um território hostil após a meia-noite, lembranças andam armadas e a esperança raramente faz o turno da noite.
Minha esperança é uma sobrevivente teimosa, mesmo ferida e sem fôlego, ela insiste em se manifestar nos escombros.
Minha trajetória não é estética, é ética. Há uma beleza ferida na honestidade de assumir que nem tudo está bem.
Minha mente é um canteiro de obras infinito, sempre há algo sendo demolido para que uma nova versão de mim tente nascer.
Minha alma suplica por trégua, enquanto a vida exige movimento. Passo os dias negociando minha sanidade com o relógio.
Sou vítima de cenários hipotéticos, sofro por tragédias que minha mente cria com a perfeição de quem já viveu o pior.
Sinto saudades de uma versão minha que talvez nem tenha existido, apenas a ideia de quem eu poderia ser antes de tudo.
Minhas cicatrizes criaram relevos na minha alma, elas limitam meu alcance, mas definem a singularidade da minha jornada.
Não busco salvadores, busco testemunhas. Alguém que valide minha travessia sem tentar consertar o que é, inerentemente, humano.
Minha alma tem a textura de uma casa abandonada, onde o vento sopra entre as frestas de memórias que eu deveria ter enterrado.
Às vezes sinto que minha alma é um piano de cauda abandonado sob a chuva, onde cada gota que cai sobre as teclas evoca um acorde de saudade que ninguém mais sabe tocar. A música que resta em mim não é para os ouvidos do mundo, mas para o silêncio dos que já se perderam de si mesmos.
Não me peça para sorrir para a foto quando minha alma está ocupada demais tentando não desmoronar sob o peso de um céu que hoje resolveu pesar toneladas. A melancolia é o meu estado de repouso, o único lugar onde não preciso fingir que a vida é um comercial de margarina.
A solidão é uma amante fiel que nunca reclama do meu mau humor ou da minha falta de apetite para a vida social de fachada. Ela senta-se comigo à beira da cama e, no escuro, somos dois velhos amigos discutindo o que restou de luz nas frestas da janela.
Minha alma tem o cheiro de livros antigos, daqueles que ninguém mais abre porque têm medo do que as páginas amareladas podem revelar sobre o passado. Sou um acervo de histórias que ninguém quer ler, guardado em uma biblioteca que o tempo esqueceu de demolir.
Gostaria de ter a fé das crianças que pulam no colo do pai sem medo de cair, mas minha confiança foi quebrada tantas vezes que hoje eu analiso até a solidez do chão antes de dar um passo. A prudência é a cicatriz da alma que já se estraçalhou no asfalto da realidade.
Minha escrita é uma conversa com os que já partiram, uma tentativa de preencher o vácuo deixado por cadeiras vazias e telefones que nunca mais tocarão. É um monólogo que espera o eco de uma resposta que eu sei que só ouvirei quando eu também for apenas memória.
A minha fé é uma chama trêmula que qualquer brisa de dúvida ameaça apagar, mas que eu protejo com as mãos em concha, mesmo que elas fiquem queimadas no processo. É melhor arder de dúvida do que congelar na certeza absoluta de que não há nada além do fim.
Minhas cicatrizes criaram relevos na minha pele que funcionam como o Braille da minha história, permitindo que eu me leia no escuro quando perco a visão do futuro. Cada marca é um capítulo, cada mancha é um erro que eu não trocaria por perfeição nenhuma.
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