Amanha Sera um Lindo dia
Se um dia as pessoas que eu quero bem se forem, eu não me esquecerei. Quando me afastei o quanto pude, houve uma hora tranquila em que, ao me inclinar sobre uma flor, ouvi tua voz. Não me digas que não, porque te ouvi falar. Falaste daquela flor no parapeito da janela.
— Lembras-te do que disseste?
— Primeiro, dize-me o que julgaste ter ouvido.
Tendo encontrado a flor e afugentado uma abelha, inclinei a cabeça e, segurando-lhe a haste, escutei. Julguei ter captado uma palavra.
— Qual era? Chamaste-me pelo nome?
— Ou disseste apenas: "Vem"?
Ouvi ao debruçar-me. Talvez tudo tivesse nascido apenas em meu pensamento; talvez nenhuma voz houvesse atravessado o silêncio. Ainda assim, respondi ao chamado.
— Pois bem, então eu vim.
Dorme sossegada, águia esquecida. Lá o tempo é contigo. Publicamente demonstram tristeza, mas no íntimo não se sabe. Rosnavam contra ti todos os dias a tua passagem. E agora te acabaste. Louvam-te e deixam-te à margem.
Os outros, que te choraram em silêncio e em verdade — o rapaz em mocidade, o humilhado, o desprezado, o ferido, e o pobre — aqueles que jamais deveriam esquecer, já não se lembram mais.
Onde estão os que te amavam? Sob que nome agora se abrigaram? Onde repousam os exércitos de perdidos que um dia choraram sobre tua face?
Seus nomes são uma centena de heróis de alto brilho; numa centena de brancas águias tornaram-se os filhos de teus filhos. O fervor com que um dia sonhaste é o mesmo que lhes consome as asas. A valentia que incendiava tua alma permanecia a serviço do homem.
Dorme sossegada, águia esquecida. Lá o tempo é contigo, e o barro também age. Dorme, ó bravo coração, ó sábia criatura que acendeu a chama.
Porque viver na humanidade é muito mais do que viver num nome.
Viver na humanidade é muito mais do que viver num nome. Há um pássaro entre as colinas e as folhas são pequenos peixes amarelos nadando no rio. O pássaro faz rasantes e ofusca o rumor das folhas do vento. Viver na humanidade é muito mais do que viver um nome. Voa grande águia.
Em uma tarde fria de um dia qualquer, vou tentando me reerguer… entre lembranças que insistem em doer e a esperança que, mesmo frágil, ainda teima em permanecer. Cada passo é lento, mas carrega em si o peso da coragem de não desistir.
Eu escrevo na esperança de que um dia alguém leia e compreenda esses cacos de mim, sem esse entendimento, as noites de insônia, as crises da minha depressão correm o risco de não ter deixado rastros que valham a pena.
As trevas que um dia me subjugavam transformaram-se em matriz de sabedoria. Entendi seus contornos, extraí deles lições e agora navego na penumbra com a calma de quem sabe que cada sombra anuncia um novo nascer.
Um dia eu já chorei por perder tudo, hoje choro por gratidão, as lágrimas mudaram de endereço, meu rosto aprendeu outro brilho.
Hoje, um “bom dia” soa quase herético, a gentileza desperta olhares desconfiados, o afeto provoca incômodo. Chegamos ao ponto em que ser humano é resistência, e a ternura, um ato de coragem.
Com o tempo, nos tornamos exatamente o que temíamos, reflexos distorcidos dos sonhos que um dia tivemos.
Um dia fui queda, hoje sou voo atento. Aprendi o chão antes de conhecer o céu. O cuidado me deu outro modo de subir, voo lento, mas sigo certo do meu destino.
Há um instante em que o dia se despede e a alma agradece. O descanso não é o fim da jornada, é o recomeço em paz. Quem foi achado pelo amor aprende que o lar é o próprio coração.
Há dias em que a única terapia é um banho quente, dissolvendo o peso que o dia insiste em deixar na pele.
O sono, para mim, é apenas um campo de batalha onde os monstros do dia trocam de roupa para continuar o cerco sob o véu da noite.
O mundo é um moinho que tritura nossos sonhos até que eles virem farinha para o pão de cada dia, uma massa insossa que comemos apenas para sobreviver. Eu tento temperar essa massa com um pouco de poesia amarga, para que o sabor da existência não seja totalmente esquecível.
Quando olho minhas cicatrizes, percebo que elas não são falhas, mas mapas de lugares onde um dia a minha esperança foi reduzida à poeira e ainda assim se recosturou.
Dentro de mim ainda vive aquele menino ferido, o mesmo que um dia caiu de uma cachoeira, lançado contra a água gélida como se o mundo tivesse decidido testá-lo cedo demais. Eu ainda posso senti-lo atravessando o ar por um instante eterno, o silêncio antes do impacto, e depois… o choque brutal contra o frio, contra a pedra, contra a realidade dura do pedregal que não teve piedade. Durante muito tempo, tentei esquecer essa queda. Tentei agir como se levantar fosse suficiente, como se seguir em frente apagasse o que ficou cravado na pele e na alma. Mas a verdade é que ele nunca saiu de lá completamente… uma parte dele ficou presa naquele instante, molhada, tremendo, assustada, esperando que alguém voltasse. Hoje, eu volto. Hoje, eu desço até aquele lugar dentro de mim onde a água ainda é fria e o eco da queda ainda ressoa. E eu o abraço. Abraço com o calor que faltou naquele momento congelado, com a firmeza que o mundo não ofereceu quando ele se chocou contra a dureza da vida. Seguro aquele menino como quem resgata algo sagrado das profundezas, não para apagar a dor, mas para finalmente dizer: eu estou aqui agora… você não está mais sozinho. E então eu entendo. Ele nunca foi fraqueza. Ele foi o impacto que não destruiu, foi o corpo pequeno que resistiu à correnteza, foi o coração que, mesmo assustado, continuou batendo contra o frio, contra a pedra, contra tudo. Ele foi sobrevivência. E agora, ao invés de fugir daquela queda, eu a transformo em reencontro.
Permaneço com ele, no meio da água gelada, sobre as pedras irregulares da memória, até que o frio já não machuque como antes, até que o tremor se torne apenas lembrança, não mais prisão. Porque aprendi, da forma mais crua e mais verdadeira, que ninguém merece mais o meu amor do que aquele menino que caiu… e mesmo assim, não se perdeu de mim.
- Tiago Scheimann
A coragem não é o rugido do leão na arena, mas a voz baixa que, ao final de um dia terrível, sussurra para o espelho: "amanhã eu tentarei de novo", com a dignidade de quem sabe que a derrota é apenas uma pausa técnica para ajustar o fôlego.
Você descobre o tamanho de um amor quando não puder mais dar um abraço e desejar um bom dia. Não deixe nada para depois.
Um dia um pensador me falou:
Não pense tanto, se encoraje mais,
Ame muito e esqueça o que ficou pra trás.
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