Almas que Nasceram uma para outra

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[Fissão Nuclear]


Ela acelerou
na minha direção,
Uma força motriz
despreocupada.


Meteorito carregado
de intenção,
Liquefazendo rocha
petrificada.


O que será de mim ?
Um mero átomo isolado,
Absorvido enfim,
por teu calor descontrolado.


Não vou retroceder
ou abortar a missão,
minha espera descabida,
meu intuito a colisão.


18/06/23
Michel F.M.

[Ingredientes Súbitos
de uma Receita Improvisada]


Neste molho encorpado, as essências,
Cumprem ardentes, tua tarefa insistente,
Para com o paladar.


Salpicados destemperos minúsculos,
Num vasto cardápio variado.


Eu não entendo nada de balanços,
Só sei que a medida de nós,
Resultará num montante adequado,
Compenetrante, descalibrado.


Suculentos aperitivos flambados,
Sempre engolidos, jamais degustados.


Servidos assim de repente,
Um banquete em louças prateadas,
Ingredientes súbitos
De uma receita improvisada.


Cristais luminosos, castiçais,
Toalhas em fibras douradas,
Mesa de mogno, brasões entalhados,
Deixados de herança às criaturas noturnas,
Que coabitavam a construção desolada.


A sarjeta não discrimina,
Nos acolhe, nos apadrinha,
Igualmente materna e azinhavrada,
Para com repulsivos, escorraçados.


Somos suntuosos borrões,
Corajosos apavorados,
Expostos assim de repente,
Na vitrine um vapor dispersado.


(Michel F.M. - Delírio Absoluto da Multidão Atônita - Trilogia Mestre dos Pretextos - 2016)

Para Michel F.M., o fogo e o sangue não são apenas figuras retóricas; são elementos de uma alquimia existencial. Na trilogia Flores do Pântano, essas metáforas funcionam como o motor da criação.


Aqui está como esses elementos se manifestam na obra do autor:


1. O Fogo: A Transmutação da Dor
Na obra de Michel, o fogo cumpre dois papéis contraditórios e simultâneos: destruição e iluminação.
Autocombustão: Como visto no poema, o artista "incendeia o próprio coração". Na trilogia, isso representa a ideia de que, para aquecer (ou despertar) o mundo, o poeta deve aceitar o seu próprio consumo. A poesia é o resíduo desse incêndio.
A Forja: O fogo é o que transforma o "lodo" do pântano em "flor". Não há beleza gratuita; ela é forjada na alta temperatura de uma vida intensamente sentida.


2. O Sangue e o Miocárdio: A Poesia como Biologia
Diferente de poetas que buscam o "espiritual" ou o "abstrato", Michel F.M. ancora sua obra no corpo. O uso de termos como "miocárdio" ou "pulsação" revela:
O Sangue como Tinta: Escrever não é um ato intelectual, é uma hemorragia controlada. O sangue simboliza a herança, a ancestralidade e, principalmente, a vitalidade que o artista sacrifica para que o leitor sinta algo.
O Ritmo Cardíaco: A estrutura de seus textos muitas vezes emula a pulsação: frases curtas, cortes secos e uma urgência que parece vir de uma pressão arterial elevada. É a "anatomia do impulso".


3. A Dialética do "Pulsar"
O objetivo final dessa queima e desse derramamento é o mundo continuar pulsando.
Para o autor, a sociedade vive em um estado de "anemia emocional" ou "entorpecimento". O artista, então, atua como um desfibrilador: ele toma o choque para si para que o coração coletivo (a humanidade) não pare de bater.


Essa visão transforma o poeta em uma figura quase messiânica, mas desprovida de glória — ele é um "operário da dor".

[Mechas de uma Gueixa]


Uma garota me foi comovente,
Era da terra do Sol Nascente,
Herdeira de um trono desde criança,
Hoje mulher renegava a herança,


Inconformada com tanta tristeza,
Ajudava os mais fracos, verdadeira nobreza.
Deixou o seu lar o Vale dos Samurais,
Mas levou em seus atos o amor de seus pais,


E nos campos rasteiros das tulipas puras,
Me envolvi com a gueixa das mechas escuras,


As lembranças que ela me deixa,
São as mechas de uma gueixa,
As lembranças que ela me deixa,
São suas mechas minha gueixa.


As colinas azuis não esquecerei,
O código de honra eu cumprirei,
Os riachos gelados me fortificaram,
As folhas secas me aqueceram,


Os olhos da gueixa me enfeitiçaram,
Seu sorriso e sua boca me converteram.
Os fogos das festas desenham no ar,
No Oriente pretendo estar,


Mas uma lacuna cresce dentro de mim,
O medo da gueixa nunca mais me encontrar.


As lembranças que ela me deixa,
São as mechas de uma gueixa,
As lembranças que ela me deixa,
São suas mechas minha gueixa.


Ela me levou até os confins,
Desde a muralha aos pequenos capins,
Ela me mostrou a força dos anciãos,


E jovens budistas ensinando cristãos,
Tanto as regras quanto as tradições,
Me ensinou a amar, transcender emoções.


As lembranças que ela me deixa,
São as mechas de uma gueixa,
As lembranças que ela me deixa,
São suas mechas minha gueixa.


(Michel F.M. - Áspera Seda: Volume Único - 2012)

Floresta de Cactos


Talvez uma única vez
Isso tudo não tenha a ver
Somente conosco.


Independente
do que você espera de mim,


Me antecipo às suas
Expectativas,
Ajo inesperadamente.


Mesmo parecendo óbvio,
Artífice de ilusões,
Operário de angústias,
Artesão da alma.


Pesquisador da profilaxia,
Busco certa toxicidade salutar,


Acidez sonhando alcalina,
Desejando ser benigna.
Blá blá e blá.


Desbravador do espírito,
Um trabalhador braçal
Que lavora com tinta e papel.


Palavreados
Ambicionando
Palavrões.


Possuo todas as perguntas
Fundamentais e universais
E nenhuma resposta.


Talvez esta única vez
Isso tudo só tenha a ver
Conosco.


Pois é,
Sou sim um poeta,
Sou só,
Poeta.


Esse é meu ofício,
Meu karma,
Maldição
E magia.


Não posso te oferecer nada,
Além de poesia.


13/01/23
Michel F.M.

[Teste Vocacional]


Péssimo com trabalhos
Administrativos,
Uma negação com
Burocracias.
Dificuldade extrema,
Tanto com papéis
Quanto com tecnologias.
Ele não sabia lidar
Com as pessoas também.
Fora de cogitação
Atuar em público.
Não havia desenvolvido
Sequer uma única
Habilidade ou competência.


Mas ele era muito bom
Em longas caminhadas
Na praia, sem cronometragem,
Ou regras definidas,
Apenas uma pegada
De cada vez, na macia areia;
Contemplando as ondas,
Ora observava o mar,
Ora observava a serra.
Às margens do continente,
Bem ali, ele era feliz.
Talvez esse fosse seu
Tão esperado talento.
Provavelmente, esse era
Seu único dom.


01/09/23
Michel F.M.

[Brilho no Telescópio]


Isso sim,
que eu chamaria
de uma análise rascunhada
e especulativa,
do espírito humano.


Aparentemente,
somos mais parecidos
do que possa parecer.


Naquele exato momento,
compreendeu,
que sua maior ambição
era o desapego.


A vida não é
em seu todo,
uma derrota absoluta.


Ao menos,
fomos bem sucedidos
em fracassar,


Aos olhos daqueles
que classificam
e quantificam a existência.


Muitas vezes,
aproveitar todas
as oportunidades
que se têm na vida,
não é o suficiente.


Das realidades possíveis,
quase relamos nos sonhos
que nunca esquecemos


e por pouco não acariciamos,
os afetos com os quais
sempre sonhamos.


Aos corações
sensibilizados
a poesia em tudo está.


Aos corações
predispostos
a poesia tudo é.


No entanto,
só consuma tua luz,
com aquilo que merece
ser iluminado.


19/09/23
Michel F.M.

Como pode um Sol se apaixonar,
Por uma Flor nascida para perfumar ?
Ela tem um trunfo, sabe conquistar
E o Sol se entrega sem hesitar.

Entre eu e o céu,
Estava você e eu te escolhi.
Uma dádiva cruel,
Afinal, o que é o Paraíso sem Você ali ?

Filha de uma mãe e vários pais,
Que tinham outros filhos em diversos cais,
A história se fazia, corrida diária,
Aquela sobrevida na zona portuária.

Foi adotada por uma bruxa,
Acorrentada no porão pela madrasta,
Era espancada, levou muita bucha,
Se viu acurralada e deu uma basta.

Garimpou por toda parte,
Imaginando uma beleza colossal.

Só há uma forma
de viver neste mundo,
e é discordando dele.

Sejamos Fabulosos

No indiscutível valor,
De uma composição,
Consiste um fator,
Uma definição:

A dedicação e
A dedicatória.

Obra agasalhada,
Por razões sóbrias,
Justificáveis, palpáveis,
Inexprimíveis e óbvias.

Imagine insanidade obscena,
Uma geração inteira,
Composta por artistas e mecenas,
Otimistas engajados, alienistas,
Filósofos, bailarinos, humoristas,
Repletos de arteira essência.

E se indo muito além,
Em divagações absurdas,
Sugeríssemos um futuro,
Manancial de Sábias Loucuras.

Audacioso e magistral,
Homenageando a vida, Inescrupulosamente,
Dedicado a Poesia.

Concebida por ternura,
Em milagres meticulosos,
Inventada na fartura,
De feitios miraculosos.

Nosso apego pelo afeto,
Apertado junto ao peito,
O assim sendo é simples,
Sejamos Fabulosos.

[O Lendário Legado de uma Lenda]


foi o conquistador
dos conquistadores,
com tuas cobiçosas
conquistas.


o imperador dos
imperadores,
em tuas imperiosas
perícias.


construiu o reino
mais caro e luxuoso
de todos os robustos
reinos.


obteve o fim digno
de uma lenda.
e neste exato momento,


os restos mortais
do maldito, apodrecem
num caixote de madeira.


o mais cobiçoso,
imperioso e robusto,
o mais caro e luxuoso,
de todos os caixotes
de madeira.


Michel F.M. - Ensaio sobre a Distração
Bruno Michel Ferraz Margoni
13/12/23

[Cromossomos]


Mesmo sabendo que não é muito,
Eu só posso te dar uma coisa,
Absolutamente
tudo.


(Michel F.M. - Altas do Cosmos para Noites Nebulosas - Trilogia Mestre dos Pretextos)

[Sheury]


Uma imagem, pode até valer mais que mil
palavras, mas, uma porção de palavras,
posicionadas com sensibilidade, podem
descrever o inimaginável.


(Michel F.M. - Atlas do Cosmos para Noites Nebulosas - Trilogia Mestre dos Pretextos)

⁠Pergaminho Sagrado
de um Protagonista
da Própria Vida

essa é uma
das vantagens,
de viver uma vida livre
de compromissos,

eu nunca me importei
com quem estava observando,
ou o que iam dizer ou pensar.

a única coisa
que me importa,
é a única coisa
que sempre me importou,

ser o protagonista
da minha própria vida.
vivê-la integralmente,
em plenitude.

meu único, exclusivo,
personalizado
e definitivo compromisso
é com ela.

ela me ensinou
que a simplicidade genuína
e honesta, vence qualquer
complexidade.

nunca olhei
a vida passar,
sempre agarrei ela
pela cintura e a trouxe
pra junto de mim.

(Michel F.M. - Trilogia Ensaio sobre a Distração - 05/11/22)

“Entre as palavras do autor e os sonhos do leitor, existe uma ponte chamada livro.”
Lourenco@Cris

“Um livro é uma ponte entre a mente de quem escreve e a imaginação de quem lê.
Lourenco@Cris