Aline eu te Amo
Um presente do céu
Já era noite quando Filipa resolveu sair para caminhar, perto do rio. Mas ainda era cedo; eram seis horas. Ou dezoito, se você ligar para isso. Ela ouvia as músicas que tocavam dentro de sua cabeça, quando começou a chover.
Chovia forte, e as pessoas corriam para chegar em casa a tempo de não se encharcar. Filipa não conseguia nem ao menos imaginar o porquê disso, já que ela mesma não gostava de perder uma boa chuva.
Ela achava que a chuva lavava sua alma, e que levava embora o que ela já não quisesse mais. Toda vez que a chuva vinha, a menina lhe pedia que levasse embora todas as suas dores, mas que deixasse as suas lembranças. E a chuva atendia o pedido. Ao menos, na maioria das vezes.
Nesse dia, Filipa pediu e implorou - em vão - que a chuva lhe lavasse a alma mais uma vez. Mas a lavadora de almas não lhe concedeu o pedido. A sensação dessa vez foi diferente.
Antes, ela se sentia limpa. E leve.
Agora, antes de qualquer coisa, ela estava bem. A chuva não a limpou, mas trouxe para ela borboletas. Borboletas que voavam de um lado a outro no seu estômago, e que a deixava com vontade de gritar. De gritar as músicas que escutava, de gritar o que sentia,de gritar qualquer coisa, de gritar palavras que fizessem - ou não - sentido. E ao invés de fazer isso, Filipa correu. Correu mais do que podia. Correu até não aguentar mais. E quando parou, era como se ela tivesse gritado tudo aquilo que não gritou. Era como se ela tivesse colocado para fora tudo o que sempre quis, e não colocou antes.
Foi esse o presente da chuva. Fazer Filipa perceber que podia se sentir limpa sem a ajuda de ninguém, ou de alguma coisa. Ela realmente podia fazer isso sozinha.
E então, Filipa se sentou na beira do rio.
E riu. Sozinha. Riu até a barriga doer.
E agradeceu com as mais bonitas palavras o presente que tinha recebido.
E em resposta, enfim, a chuva cessou.
Amarelo no céu
Chegou-se a noite. Mas não era uma noite como todas as outras – escura e iluminada pelos apartamentos de luzes ligadas. Era uma noite diferente. Filipa tinha colocado os pés em casa, e acabado de chegar de mais um dia normal. Resolveu ir até a sua janela preferida, e sentou-se por lá, para observar o céu.
Ela nem sequer precisou olhar muito. O motivo daquela noite estar tão diferente – e linda -, foi o primeiro brilho amarelo que bateu nos seus olhos. Esse brilho iluminou o rosto de Filipa como um sorriso, daqueles que aquecem. Tentou adivinhar o que seria aquele pedaço tão lindo de céu.
Ela simplesmente não conseguia pensar. Estava encantada com tanto brilho de uma só vez; ainda mais um brilho daqueles, que mais parecia pular, de tanta luz que irradiava.
Olhou, olhou, olhou. Filipa passou quase que uma noite inteira só observando aquele feixe de luz. O que de tão especial havia nele, afinal? Nem ela sabia. A única coisa que sabia era que, fosse o que fosse, aquela luz amarela era completamente diferente. Ao menos, diferente das outras que estavam espalhadas pelo pano preto do céu. Essa era maior.
E olhando, lembrou-se da vida. Das pessoas. Das risadas. Dos olhares. Das palavras. Das conversas. Dos sorrisos. Principalmente, dos sorrisos.
Sorriu. E a luz a iluminou mais uma vez – e mais forte. Parecia um sol, de tanto calor que trazia às bochechas, já rosadas, de Filipa. Resolveu então, não pensar em mais nada. Só no amarelo que via no céu.
E só depois de mais um tempo olhando - e com um espaço vazio na mente –, Filipa descobriu do que se tratava aquele feixe amarelo. Era uma lua. E que lua.
Amarela e enorme; era rodeada por pequenas brechas, também amarelas. Essas do lado, eram as estrelas. E brilhavam tanto como a velha lua.
Filipa então resolveu que a lua daquele dia guardaria todas as suas palavras – ditas e não ditas - e principalmente, suas lembranças. E decidiu que cada raio de lua e luz de estrela, seria para lembrá-la daquela noite especial. E que assim, ela também lembraria de cada lembrança guardada.
E deu um nome para a lua, que junto, carregava as estrelas, como se tudo fosse uma coisa só. Filipa chamou aquilo tudo de “amarelo no céu”, para se lembrar da luz amarela que só viu uma vez na noite, e que mesmo na noite, mais parecia um sol.
Guardado
Acho que solidão é uma palavra muito grande. Tão grande, que ela mesma se completa, e deixa os outros viverem nela. E por se completar, deixa os outros sós. E os outros, por sua vez, se calam.
E de tanto se calarem, as pessoas guardam coisas demais dentro de si. Guardam mágoas, sonhos contidos, ideias apagadas, sentimentos esquecidos... e palavras não ditas. E de tanto guardarem, acabam sem ter para quem desabafar depois.
As pessoas se esquecem de como é bom ter alguém para compartilhar a vida. De como é bom ter amigos. De como é bom sentir. De como é bom sorrir. De como é bom amar.
Escondem em si os seus sentimentos, e depois, não tem mais para quem dar. O tempo acaba, e tudo acabou ficando guardado. De que adiantou, afinal, ficar calado? Tudo virou sentimento engarrafado. E de que vale um sentimento engarrafado? Não vai dar para bebê-lo, muito menos sentí-lo. E mesmo que desse, nunca seria a mesma coisa. Sentimento só é bom quando se sente de verdade. E se esse sentimento for amor? aah, o amor! O amor é quando “o coração não quer mais sair de casa”... E a maior burrice é querer engarrafá-lo também.
As pessoas se esquecem do valor de um sorriso. Se esquecem que o sorriso é a ‘manifestação mais linda dos lábios quando os olhos encontram o que o coração procurava’. Se esquecem que o sorriso pode curar feridas. Se esquecem que apenas um sorriso pode acabar com a solidão.
Acho que a solidão nos faz esquecer de muitas coisas importantes de tanto nos fazer guardar. “A solidão é uma ilha com saudade de barco”. É ela que faz com que nós queiramos parar o tempo.
E mesmo assim, mesmo nos fazendo guardar e esquecer, ainda é ela que nos faz querer falar. Ainda é ela que apesar de tudo, ainda nos faz querer viver tudo novamente. Ainda é ela que nos faz querer parar de parar no tempo. Ainda é ela que nos faz sentir saudade, e querer sentir a vida de novo. É ela que acaba fazendo com que a gente queira sentir as pessoas novamente.
E depois de tanto sofrer – de falar mal dela, e de derramar lágrimas -, acabamos agradecendo. Porque no final de tudo, foi ela que nos fez perceber o mundo que estava lá fora e que a gente já não percebia mais.
Foi ela que nos fez ver as cores novamente.
Incansável
De tanto esperar por aquele velho sorriso, Filipa cansou. Cansou de ver a vida passar. Cansou de esperar. Cansou de sentir tudo sozinha. Ela já não sentia mais a falta daquele pedaço de alegria, e então, a esperança que restava nela, fez-se morta. O fim - antes inalcançável -, enfim, se fez presente para ela.
Depois de guardar tudo quanto é lembrança num canto só, Filipa decidiu modificar o seu modo de vida. Disse pro próprio coração que agora só ia aceitar gostar de quem gostasse dela.
E o coração disse que tinha entendido – embora nem Filipa acreditasse nele.
Ela ainda disse mais. Disse que cada vez que um amor ia-se embora, quem mais se machucava era o coração mesmo, e que ele tinha que parar com essa mania de querer mandar nos outros. Disse que não ia mais chorar. Disse que não ia mais escolher não ser amada, que tudo agora ia depender da vida – e do tempo.
E mais uma vez, o coração fez que entendeu. E mesmo assim, Filipa não acreditou. No fundo, ela sempre soube que não ia depender da vida nem de tempo, e sim, do – metido - coração. Sabia que seu sermão não ia adiantar de nada... o coração nunca obedeceu mesmo. Ele sempre se achou dono de suas vontades, e não era agora – e nem com um sermão - que ele iria mudar.
Resolveu, então, ir aproveitar o tempo que lhe restava até o coração resolver aprontar outra. Ela já sabia que ele estava pensando em cair num daqueles amores idealizados, e tinha quase certeza de que ele ia se estrepar de novo.
E Aproveitou. Só que num dia comum, chegou o coração, e aprontou mais uma.
Mais uma
É, o dia do coração aprontar novamente tinha chegado.
Foi num dia simples, mas que estava lindo. Era um dia cheio de cor, de céu, de nuvem e de riso. E havia – claro – um novo sorriso. Não era – e nunca será – igual ao antigo, mas até que parecia um pouco. O jeito desse menino de olhar, de rir, de falar, e até de sorrir, com aquele sorriso que te deixa encabulada e com vontade ao mesmo tempo - um dos preferidos de Filipa -, eram coisas que chegavam a lembrar aquele velho sorriso que foi perdido no tempo – mas nunca na lembrança.
Filipa havia passado só uma tarde trocando risos, e mais uns dias trocando conversa. Só bastou esse pouco tempo, um tanto de riso, uns elogios, umas músicas, alguns gostos e muita conversa - e algumas cervejas - para o coração incansável de Filipa resolver cair no tal amor idealizado, como a dona dele já havia previsto.
Filipa só queria que o coração dela ficasse quieto por mais tempo.
Queria que ele sossegasse alguma vez.
Ela só queria que ele parasse de querer arder de paixão sozinho.
Mas nada o fez parar com essa mania. Nenhum dos sermões dados dias antes, nenhuma das brigas, nenhum dos pedidos... nenhum dos arranhões. O coração dela havia mesmo decidido amar novamente.
E lá foi ele. E mais uma vez, levando – ou seria arrastando? – Filipa junto.
Corações Trocados
O coração de Filipa é daqueles que gostam quando o amor chega e manda em tudo. É daqueles que gostam de se sentir renovados quando já estão cansados. É daqueles que gostam quando o amor toma conta da casa alheia e faz o que bem entende. É daqueles que ainda acreditam num amor de cinema. É daqueles que obedece a tudo quanto é sentimento, só não obedece à razão.
E é por gostar de sentir o amor, que ele age assim. E foi por agir assim que, dessa vez, ele acertou. Finalmente, depois de tanto buscar, ele havia encontrado – ou pelo menos por enquanto – o sorriso certo. Um entre tantos, e que tinha acabado de se tornar especial. Agora, esse era o mais lindo. Era o mais importante. Era o que – finalmente – tinha resolvido sorrir igual à Filipa. Era o que tinha decidido amá-la.
Esse foi o sorriso que se declarou, que abriu a luz mais linda por entre os dentes, que roubou um beijo. Foi o que disse que por ela, limparia até os trilhos do metrô. Foi o que chegou mais de repente do que qualquer outro. Foi o que disse que queria tê-la para sempre, e que mesmo que um dia tudo acabasse, ela ainda estaria com ele, porque ele ainda estaria com ela. E Filipa sabia que era verdade, porque ela também sentia o mesmo.
Foi esse sorriso que fez com que Filipa quisesse entregar seu coração por inteiro, para trocar por um coração novo.
Não trocar por um coração novo em folha, sem sentimentos e sem marcas... Ela quis trocar o coração dela pelo coração dele. O coração do seu sorriso. E trocou. E então, seu coração passou a bater por conta desse outro “novo” coração.
É, o amor havia chegado mais uma vez. Sem causa nenhuma, sem começo definido... Sem nada, como todo amor. Chegou apenas com o velho suspiro dos apaixonados e como quem manda – com aquele enxerimento todo -, tomou conta dos dois corações.
Qualquer palavra
Palavras. Elas podem machucar, falar forte e pedir com carinho. Podem magoar e ofender. Podem dizer muito, ou pouco. Podem fazer refletir, emocionar e chorar. Podem criar amizades. Podem cativar e fazer desejar. Podem deixar solitário, ou podem fazer companhia. Podem ser traiçoeiras, ou amigas. Podem enganar. Podem cativar.
Podem fazer música. Podem fazer poesia. Podem fazer arte. Podem traduzir sentimentos – ou ao menos tentar.
As palavras podem ser só palavras e mais nada ou podem fazer as pessoas se apaixonarem. Mas as palavras também podem mentir. Podem fazer as pessoas acreditarem no que não existe. Pode trazer danos irreversíveis a um coração – e para os portadores deles.
As palavras podem fazer alguém perder as esperanças.
Perder as esperanças na vida, nos sentimentos, nas pessoas... E no amor.
Mas as palavras também sabem fazer as pessoas voltarem a ter esperança, inclusive, no amor. E já faz muito tempo que ela faz com que as pessoas ainda acreditem no amor. São elas que fazem brotar a esperança dentro dos corações desacreditados, e fazem com que eles ainda esperem pelo sentimento mais falado de todos.
As palavras, acima de tudo, fazem as pessoas acreditarem. Só não se sabe no que cada uma vai escolher acreditar, ou quais palavras cada pessoa ouvirá.
Palavras convencem, e já me convenceram de muita coisa. Já me convenceram de que nem delas eu preciso pra explicar todos os sentimentos. Já me convenceram que tudo que é dito por elas, apesar de algum estrago que possa ter sido feito, um dia pode ser consertado – até mesmo os corações partidos em milhares de pedaços. Já me convenceram que o mais importante não é o que elas dizem, mas o que elas causam; e que apesar de serem importantes, não são elas que amam.
Palavras estão em todo lugar, e com elas só não se pode ficar sem dizer nada.
Tudo me traz você
Vez ou outra a saudade resolve parar de se esconder por dentro de mim e aparece da forma mais inesperada, trazendo de lá do fundo, as lembranças mais bem guardadas.
Todas as vezes que me encontro com essa tal de saudade, o sentimento é o mesmo... A única coisa que tenho vontade é de voltar no tempo. Não que eu queira mudar o que fiz. Eu só queria poder viver novamente o que já se passou há muito tempo.
Eu apenas queria poder sentir teu abraço encaixado no meu; sentir o sol no teu olhar; queria sentir o teu calor junto a mim; queria sentir o teu sorriso no meu. Tudo que eu mais queria era poder te sentir como uma parte de mim mais uma vez, só pra afogar essa saudade num mar de vontade. Na vontade de te ter em mim, como nunca tive antes.
Ah, se tu soubesses que eu vivia tão sozinha de saudades tuas... Era como se a alegria fizesse questão de não me encontrar. É, eu senti a sua falta. Senti falta do teu sorriso – aquele que eu mais gostava – que tanto me aquecia. Senti falta do teu perfume, que agora eu só o sentia quando ele andava com o ar. Senti falta do sol que eu via nos teus olhos. Mas eu senti, principalmente, o meu coração latejando de dor quando você foi embora.
Embora eu sempre mentisse pra mim mesma que não sentia nada, eu sentia. E tudo foi mais que comprovado quando meu coração quase parou de bater de tanto amor guardado pra uma pessoa só.
E mesmo depois de tanto sentir o coração doer, eu ainda queria poder voltar no tempo e ter a ilusão de que eu fui o seu melhor momento. Eu queria poder me enganar mais um pouco e pensar que ainda posso terminar junto a você.
Eu só queria poder ser a saudade dentro de você, como você é dentro de mim.
Pra nunca mais soltar
É, o coração mais bobo do mundo realmente havia achado o sorriso certo e estava caindo de amores.
Filipa nunca havia amado alguém que correspondesse tão lindamente seus sentimentos, e agora, o seu coração mais parecia que tinha um sorriso por dentro dele, colado, como se tampasse e fizesse esquecer todas as feridas; o seu coração era entrelaçado nesse sorriso, e eles eram como duas fitas, que jamais poderiam se soltar.
Cada dia era uma coisa diferente... Era como se em cada dia o sorriso fizesse questão de conquistá-la novamente.
Era como se ele sentisse que o único caminho para o amor mais bonito que Filipa podia dar, era o amor sincero; era o sentimento puro, e jogado aos montes, para que todos pudessem ver o que se sentia.
Esse sorriso foi o que mais fez os olhos de Filipa rirem. Foi o mais sincero. Foi esse que mais fez Filipa querer o amor na sua forma mais crua, daquele jeito de chorar e rir na mesma hora. Foi por esse sorriso que o coração dela se apaixonou novamente.
Foi por ele que ela não quis deixá-lo nunca mais. Foi por ele que ela tomou banho gelado no inverno. Foi por esse sorriso que Filipa desistiu de não amar e se entregou de vez. Foi pra esse sorriso que, enfim, ela teve coragem de gritar que o amava. Foi pra ele que ela disse que ele podia até esquecê-la, mas que ele nunca esquecesse do amor dela por ele.
E quem um dia vai entender os corações? Vai saber quando é que um simples “eu te amo” é mais ou menos importante do que alguém que chega e pergunta “tem lugar pra mim?”... Amar é algo para poucos. Só alguns entenderão que na verdade não é mistério, é só o coração que não te deixava amar.
E quando amar, provavelmente você vai entender.
“Quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração? E quem irá dizer que não existe razão?”
Aqui ainda resta a esperança
A gente finge. A gente finge que não vê o velho que está sentado na beira da calçada, implorando por um prato de comida. A gente finge que não está vendo um rosto carente de felicidade, quando uma criança vem nos pedir uma esmola. A gente simplesmente finge que essas pessoas não existem.
Fingimos, e ponto final.
Fingimos por medo, por conveniência, por ignorância.
Fingimos por puro egoísmo.
Viramos o rosto para não ver os problemas que existem em cada esquina, achando que essa atitude, um dia, pudesse resolver alguma coisa. Vivemos num mundo próprio, e deixamos para lá as vidas que não participam dele, afinal, elas não nos atingem... Temos medo de tentar corrigir o erro que já se deu por confirmado há muito, mas esse medo só nos faz perder tempo.
Mais do que tempo, perdemos também a pureza e a justiça. Em troca? Em troca ganhamos um mundo moldado na ilusão de que a felicidade é algo que se compra. Não, ninguém vai achar a receita da felicidade no seu programa preferido da tv. Até quando vamos fingir que não tem nada de errado? Até que o mundo seja engolido de vez pelo egoísmo?
Os erros foram feitos, estão todos aí. Só falar e lamentar não vai nos levar a lugar nenhum... a única solução é a mudança. A nossa mudança.
Se nós mudarmos, o mundo vai mudar com a gente. Por favor, peço que saiamos desse comodismo que só nos afunda cada vez mais num buraco sem fundo. Peço, ainda, que o amor sobreviva, e com ele, a esperança.
Precisamos entender que o que é bom só existe quando compartilhamos... Precisamos amar, ajudar, acreditar.
Precisamos ser de carne e osso.
Só é, e acabou
Quero só saber quem é que consegue definir o que é o amor.
Bem, acho que ninguém. Talvez ninguém consiga porque o amor é um sentimento muito complicado - quem sabe até, o mais complicado de todos -, ou talvez porque tem gente que não sentiu ainda.
Ou mais talvez ainda... o próprio amor é que não deixa, pois se as pessoas conseguissem limitá-lo, tudo ia perder a graça.
Ia perder a graça porque o amor seria sempre a mesma coisa... todo mundo iria sentí-lo de uma forma igual. E eu pergunto: qual a graça que poderia haver se todos fôssemos iguais?
Talvez, se nós conseguíssemos definir esse sentimento, ninguém mais sofresse. Mas, embora isso pareça algo bom, eu acredito que não seja. Porque sofrer faz parte de um amor mal acabado, faz parte de qualquer amor que seja grande... O sofrimento faz parte do próprio ser, e principalmente, faz parte de qualquer sentimento, independente do tamanho.
O sofrer faz parte de qualquer um que ama de muito.
Sabe... se me perguntarem o que é o amor, a única coisa que eu poderei dizer é que o amor não é daquelas coisas que têm um significado certo no dicionário... porque ele mesmo não é certo. Pelo contrário, o amor é um dos sentimentos mais amplos, e mais incertos que existem! Do mesmo jeito que um alguém o sente de determinada forma, aquele alguém já sente de outro; o da outra ponta, nem sente; um ali, nem acredita; o outro, morre de amores; e eu, vou acreditando e sentindo.
O amor pode fazer sentido, pode doer, machucar, alegrar... ou não. Cada um sente de uma forma, e é por essas e outras que o amor não se define.
O amor não se limita, é um eterno parênteses em aberto.
O amor é só algo em que a gente não manda, só sente; E é por ele, e com ele que o nosso coração bate.
O amor é só sentir... sem nenhuma definição, e ponto final.
A culpa é de quem?
A nota da própria educação é zero, consciência – seja qual delas for – já não existe, o errado virou certo, a fome está cada vez maior e o lugar de dinheiro agora é na meia.
Quase todos os dias levantamos questões sobre que mundo deixaremos para nossos filhos, netos e tataranetos... Mas nem sequer pensamos nas pessoas que deixaremos para o nosso mundo. Não pensamos se ainda existirá alguém com atitudes capazes de ajudar o nosso planeta e a nossa gente. Nós simplesmente ignoramos o fato de que tudo pode acabar, e continuamos destruindo o que vemos pela frente. Quando é que iremos nos tocar de que um dia a nossa casa, o nosso ‘planeta água’, não aguentará mais o que fazemos com ele? Até quando as crianças que estão perdidas por aí suportarão a fome que as engole?
Está tudo de ponta cabeça... O mundo está mesmo uma porcaria. Ninguém respeita nada, ninguém vive, ninguém sente, ninguém mais liga para o que está acontecendo. A fome se alimentando de gente, o planeta ficando cinza, a corrupção acabando com esperanças... E as pessoas nem sequer tentam mudar alguma coisa. Nem tentam mudar seu jeito de ver o que se passa ao redor, muito menos suas atitudes. Só o que importa é a competição. A competição que mata, que rouba, que atrapalha... Que acaba.
Que acaba com o pouco que ainda nos sobra.
Sem medir palavras
E ela disse, sem nem mesmo acreditar no que dizia:
- Já não sou mais igual ao que antes era, porque perdi uma parte de mim: você. Não vou ficar aqui dizendo que doeu perdê-la, porque isso você sabe... Qualquer um sabe a dor de ter que fazer o que não se quer, ainda mais quando se trata se amor. Eu não pedi pro amor chegar, mas ele veio. Eu não pedi para que ele me deixasse com o brilho nos olhos dos apaixonados, nem me fizesse te amar... Mas ele fez. Talvez esse tal amor seja só um sentimento mal educado, e nem sequer valha a pena eu estar falando sobre o próprio, mas graças a ele eu vi o que se passou por dentro de mim, e não vou reclamar – embora eu tenha vontade algumas vezes -, porque ele me fez ver tudo de uma forma diferente. E mesmo que eu não te ame mais, eu ainda quero amar um outro alguém... Porque eu quero poder sentir tudo de novo. Sentir cada frio na barriga, cada brilho, cada pessoa, cada pedacinho do amor! Eu sei, você vai rir da minha cara... Mas pode apostar que um dia eu irei rir da sua, por você nunca ter sido capaz de amar alguém como eu te amei.
Um par
Desacreditada do amor, Eduarda sempre soube pular fora das relações. Principalmente quando havia alguma possibilidade de começar a achar que esse sentimento existia. Talvez todo esse medo viesse de um episódio distante: do dia em que ela vira seu pai quebrar o próprio coração e tentar consertá-lo... Em vão.
Enquanto seu pai catava os cacos do coração pelo chão, sua mãe jurou que nunca iria esquecer daquilo... E Eduarda prometeu que nunca iria deixar-se levar pela vontade. Ou por um desses amores que as pessoas dizem que dão, porque - segundo ela – o amor não dura nada, e quando ele acaba nós temos que arranjar outro meio de seguir nossas vidas, mesmo com a dor nos corroendo por dentro.
E nesse pensamento que construiu, permaneceu por muito tempo... Até que o destino resolveu interferir – pra variar -, e mais uma vez, fez a roleta girar pro lado contrário. Digamos que estivesse até demorando pra que o destino viesse botar seu dedo no meio da história e dizer que não era assim que se fazia, e que ela devia parar de ignorar o que estava bem ao seu lado – ou quem – e deixar ser levada por alguém ao menos uma vez na vida, para ver no que ia dar.
Mas e quem disse que ela queria? Tentou ignorar qualquer sentimento que viesse a desabrochar. Mas só tentou mesmo... Até parece que Eduarda não sabe que quando não se faz o que o destino quer, ele mesmo trata de dar um jeito. E foi exatamente isso que aconteceu: o destino fez Eduarda apaixonar-se. Só que ela continuava sem querer, e com uma promessa a ser cumprida. Uma promessa que servia como escudo, para que ela nunca fosse machucada como já tinha visto um dia.
O que acontece é que ela ignora tudo, menos o medo que tem de amar, e fica na dúvida entre o risco e a certeza. O risco de se deixar levar e a certeza de permanecer só, com sobras de sentimentos que nunca a deixará mal.
- “Aceite de uma vez esse amor! Você já não vê que ele existe? Como poderias amar se ele não existisse? Se deixe levar, pelo menos uma vez na sua vida. Prometo que não vou te machucar. Eu te amo. Eu juro”.
Ela nunca acreditaria nessas palavras.
Não antes de conhecer o amor.
Estava cheia de pensamentos misturados na sua cabeça. Pensamentos que pareciam ser tão contraditórios entre si, mas se entrelaçavam de alguma forma. Ela não queria acreditar, não queria se deixar vencer. A última coisa que queria ignorar era sua promessa. Mas o que se havia de fazer? Pedro era uma exceção. Era um parênteses, era um espaço, era uma esperança, era um travessão... Era tudo, menos um ponto final. Ele era do que ela precisava... E ela já estava a caminho de acreditar nisso.
Enfim, Eduarda arriscou:
- Me deixe com alguma prova de que isso não é uma ilusão.
- O que eu posso fazer?
- A única coisa que sei é que eu não queria acreditar em nada. Nem nesse sentimento, nem em você, muito menos nas suas palavras... Mas você é a única exceção disso tudo.
Pedro deu um beijo na testa de Eduarda, com o maior carinho que alguém já viu, e lhe disse:
- Soa clichê, eu sei... Mas eu só posso dizer que nunca imaginava que fosse gostar tanto de você desse jeito. Só que hoje, a única coisa que não consigo imaginar é ficar longe de você. Por favor, só me diga que alguma coisa cabe entre nós, que algum sentimento nos entrelaça de algum jeito.
Eduarda permaneceu imersa em seus pensamentos por mais de um minuto. Não conseguia falar nada... As palavras formaram nós na sua garganta.
Até que num impulso de coragem, soltou:
- “Diz que a gente sempre foi um par”
Palpite
Julia é uma mulher que tem lá suas feridas, umas já fechadas, e outras bem escondidas; tem sempre um sorriso no rosto, independente de como esteja por dentro; é apaixonada por música, cinema, Vinícius de Moraes e brigadeiro; tenta não se arriscar tanto quando o assunto é coração – embora não tenha muito sucesso quando tenta evitar –; ama o sol e adora um dia de chuva, daqueles pra ficar embaixo do cobertor, vendo filme.
Rodrigo é egoísta, talvez até demais; não é daqueles que contam a sua vida de primeira e diz “acabou”, ele é completamente o contrário; às vezes surpreende como ele é tão complicado e difícil de entender; gosta do sol, mas prefere uma boa chuva; não é lá muito preocupado com o futuro; gosta de observar os sorrisos dos olhos – diz que é o mais sincero – e adora soltar umas cantadas ao pé do ouvido só pra poder ver um sorriso envergonhado.
Embora possa não parecer – ao menos nesse pedacinho contado de cada um -, eles são umas das pessoas mais parecidas que eu já vi... A maior diferença é que Rodrigo tem uma namorada, e o maior problema foi o destino tê-los apresentados na hora errada.
Ou não, vai ver que era pra ser assim mesmo: um amor incomum, que dispensa explicações; que só de olhar, você já entende. É exatamente como Rodrigo definiu: esse amor deles é uma espécie de amor-amizade.
Bem, eles se conheceram num bar, e Julia nunca pensou que isso viesse dar em algum lugar, muito menos nessa amizade que eles têm hoje... Afinal, a primeira coisa que Rodrigo disse para ela foi logo uma reprovação. Ele a viu pedindo cachaça, olhou estranhamente, e deve ter pensado algo como “porque diabos uma mulher ia pedir cachaça? Ela parece tão frágil! Deve estar é querendo afogar as mágoas na cana mesmo”, quando falou:
- Cachaça? Mas que coisa feia, rapaz!
Julia o olhou com uma cara um tanto quanto desprezível, em relação ao comentário dele, mas logo abriu um sorriso e soltou sem nem pensar:
- Mas o que é que tem de feio? Nunca visse uma mulher beber cachaça não, foi? Hahahaha.
- Claro que já, mas é que você parece tão...
- Frágil? Eu sabia que tu tinha pensado alguma coisa desse tipo...
- Bem, era o que eu ia dizer... Mas é que não sei explicar, eu acho que não combina muito bem contigo. Além do mais que cerveja é bem melhor, não acha não?
- Hahahaha, eu não gosto muito de cerveja não, ainda tô aprendendo a gostar. Mas e aí, me conta o que tu pensou quando me viu pedindo cachaça?
E daí em diante, começaram a conversar sem nem saber o quão especial um seria para o outro.
Aos poucos, foram se descobrindo... Era como se em cada dia, Rodrigo contasse um capítulo de sua vida – o engraçado é que ele ainda não acabou o seu “livro” até hoje – e Julia contasse um pedacinho do que ela era. Descobriram gostos iguais para tudo: pra música, pra sentimento, pra escrever, pra olhos e pra sorrisos. O tempo passava rápido para eles, quando na verdade passava tão lento que só fazia uns três meses que eles se conheciam... E mesmo assim, já tinham um laço tão forte como alguém que se conhece há anos.
Num dia, sem nem ter porquê, discutiram que sobre o destino. Disseram que ele havia se atrasado, que havia feito as coisas numa ordem inversa, que eles deviam ter se conhecido antes, só pra ter mais tempo. Mudaram de assunto. Falaram sobre alguns textos, uns filmes e sobre o clima. Caíram no assunto “nós”. Discordaram e concordaram, ficaram sem resposta e sem saber o que dizer. Por fim, chegaram numa conclusão: que deixasse a vida levar, porque o que tivesse de acontecer, iria acontecer de todo jeito.
Ficaram por quase uma semana sem se falar – o que era muito para eles -, até que Rodrigo ligou pra Julia e cantou:
- “Tô com saudade de você, debaixo do meu cobertor. De te arrancar suspiros...”
- “... Fazer amor.” Que música mais indecente pra cantar pra mim, num acha não? Hahahaha.
- Hahahahaha, acho não. Tô com saudade de você... Vamos sair? Agora?
- Agora? Às onze e meia da noite?
- É, agora! Bora pra aquele bar, onde a gente se conheceu?
- Tá bom... Vou só trocar de roupa e a gente se encontra lá em quinze minutos, tá?
- Tá certo, não demora!
- Relaxa. Beijo.
Julia desligou o telefone e ficou só ouvindo o barulho que seu coração fazia... Ou era amor, ou era saudade. Ela só não sabia bem do que se tratava.
Quando Julia desligou, Rodrigo correu pro banho. Não conseguia parar de pensar no tamanho da saudade que tava sentindo. Saudade do sorriso dela... Das conversas, do carinho. Saudade deles dois.
Julia chegou, e cinco minutos depois, Rodrigo também. Sentaram-se, ele pediu uma cerveja e falou:
- Cachaça, senhorita?
- Hahahaha, não, engraçadinho. Para você que não sabe, agora eu tomo cerveja – e o olhou desprezando o comentário dele de novo.
Parecia que estava tudo igual. O mesmo lugar, o sentimento, eles, a amizade... Tudo estava como era pra ser. Ficaram por lá até quase uma hora da manhã, e nesse tempo, conversaram muito; tanto, que não sei como eles ainda tinham do que falar.
Foram juntos até o carro, estava chovendo. Antes que Julia entrasse em seu carro, Rodrigo a puxou e sussurrou no ouvido dela:
- Me diz como é que você conseguiu me viciar assim, desse jeito, me diz?
- Só te digo uma coisa. Ou melhor, duas. Uma: nem venha com isso agora... Pare. E outra: eu tenho um palpite. Sobre a gente.
- Como é que eu posso parar com você sorrindo pra mim desse jeito e com seus olhos âmbar me olhando assim?
- São verdes, já disse.
- Pra quê tu insiste que são verdes? Âmbar é muito mais bonito.
- Então tá bom, eu deixo que eles sejam âmbar só pra tu.
- Hahahaha, obrigado. Me diz aí, qual é o teu palpite?
- “Eu sinto a falta de você, me sinto só... E aí, será que você volta? Tudo à minha volta é triste... E aí, o amor pode acontecer. De novo, pra você, palpite.” Era esse.
Rodrigo puxou-a pra mais perto e disse, perto da boca dela:
- “Tô com saudade de você, do nosso banho de chuva, do calor na minha pele, da língua na tua”. E esse era o meu pra você.
Beijou-a.
Na cabeça de Julia vinham milhares de coisas para serem gritadas, mas ela só conseguia mesmo era pensar que acabava de descobrir se era amor ou se era saudade. E não era nenhum dos dois.
Rodrigo não conseguia pensar em mais nada, só na chuva fria e o beijo que o esquentava por dentro, e na vontade de ter Julia sempre por perto.
Soltaram-se. Julia o olhou com os olhos cheios da confusão que brotara na sua cabeça, mas com a certeza que vinha de dentro do seu coração e disse:
- Como é que tu conseguiu roubar um pedaço do meu coração assim, tão facilmente?
- Eu sempre fui um bom ladrão.
- Ridículo.
O silêncio fez-se presente por uns dois minutos, e eles sabiam o que havia acontecido ali. Além de ficarem ensopados de água, eles de descobriram o que sentiam. Julia sabia que precisava dele, e Rodrigo sabia que precisava dela; eles eram como um vício, um para o outro.
Rodrigo beijou-a na testa, e já ia embora quando Julia disse:
- Entenda só uma coisa: Eu nunca vou deixá-lo ir.
O resto ficou subentendido, como um parênteses em aberto na cabeça de cada um.
Gente
Um velho sentado na esquina, um outro jogando dominó na praça, uma senhora com sua neta no parque, uma moça pegando ônibus pra trabalhar, uma criança pedindo esmola, um filho da rua, um cachorro largado, um palhaço no sinal, cores apagadas, o cinza da cidade. Meu pai, minha tia, seu primo, nosso avô, seu irmão, nosso amigo, sua mãe, minha avó, minha filha, sua sobrinha, uma roda de conversa, a cor dos seus olhos, tua voz, meus trejeitos, violão tocando poesia, amor na ponta da língua.
Tudo se move ao mesmo tempo, se interliga e passa por nós de uma só vez. Vai, volta, passa de novo, se mostra, remexe, mistura e por pouco, quase que tudo se junta numa coisa só. Quase. E é por esse quase, que nem tudo nos marca.
A gente passa na rua, vê gente aqui e ali: não guarda. Vi o rosto de um, não sei o nome do outro. A senhora que me pedia esmola, ficou na calçada; não tinha rosto, ficou pra trás no retrovisor. Mais de seis bilhões de pessoas no mundo e nem quinze chegam a nos marcar de verdade. Chega a ser engraçado a quantidade de gente que só passa por nós, sem nos acrescentar nem ao menos um "bom dia" ou uma lembrança.
Mas também tem aqueles que nos marcam por toda uma vida. Tem gente que a gente nem tem o direito de escolher, mas vai estar sempre ao nosso lado. Tem gente que a gente só olha, e já sabe que ali vai nascer uma amizade que vai durar muito tempo. Tem gente que é fácil de ser cativada. Tem gente que nos ganha pela dificuldade de conquistá-la. Tem gente que é chata, mas que mesmo assim, a gente gosta. Tem gente que só dá uma palavra, e já nos conquista. Tem gente que parece que guardou as melhores palavras pra saber como nos cativar. Tem gente que nem fala nada, mas nos ganha com um sorriso. Tem gente que chega de repente, arruma um pedacinho no coração da gente e se instala por lá mesmo, como uma raiz que a gente não consegue – e nem quer - arrancar. Também tem daquela gente que arruma um canto dentro da gente, e bem de mansinho, vai embora. E vai tão de mansinho, que a gente só percebe quando a saudade já está nos rasgando por dentro.
Saudade.
É só aí que percebemos quando alguém nos marcou. O que marcou, ficou; e isso, não será esquecido enquanto houver esse sentimento quente e inquietante dentro de nós.
Saudade de cada frase perdida entre duas bocas, da sua cor vista em teus olhos, daquele livro que lia quando pequeno, de uma música, de um verso dito inapropriadamente, de um erro, de uma saudade, de uma pessoa, de surpresas, da verdade, da sinceridade, do amor, de uma cor, de uma foto... Saudade é tudo aquilo que um dia chegou pra nós, e, por sorte - ou não -, ficou preso em cada pedaço nosso.
Fica
Talvez seu sorriso ainda brilhe lá no fundo das minhas lembranças. Lá no cantinho, bem escondido, pra ver se não aparece... Pra se esconder de mim mesma. Na verdade, o problema é que você anda se escondendo por dentro de mim esses dias, com medo de que eu lhe pegue e lhe tire de onde está. Será que você não aprende que não te quero fora de mim? Como pode você ver meu sorriso e não entender que ele ainda brilha pelas borboletas que você traz ao meu estômago? Entenda: eu sempre fui sua, e se um dia, por ventura, deixar de ser... Ainda serei: no meu inconsciente tem uma parte que não suportaria ficar sem você.
Você vai (re)aparecendo devagar, ficando mais evidente em mim. Agora, meus olhos refletem os seus. Suas cores, suas vontades e seu horizonte. Buscamos um mesmo fim, um mesmo nós. Estamos quase como um só, e você já parou de se esconder. Você vai ficando, e me levando nesse passo, só com o som do meu coração, fazendo uma música só nossa.
O tempo já se foi, passou. Você ficou e eu só faço cantarolar aquela música de Chico Buarque, para lhe lembrar todos os dias que não precisa se esconder em mim de novo. Aquela, "Fica". Canto toda, e quando chego na minha parte preferida, repito até cansar.
Repito, repito, repito... E quando canso, meu coração toca nossa música, cantando assim: "Mas fica, meu amor... Quem sabe um dia, por descuido ou poesia, você goste de ficar".
Sem tempo nenhum, só primavera
Quando olhei bem no fundo dos teus olhos, não acreditei no que eles me diziam. Eles nem sequer falavam nada; gritavam um adeus, sem um porquê ou alguma razão. Será que tudo isso aconteceu mesmo? Queria que você não tivesse ido embora... Às vezes imagino que você está atrás da porta, só esperando que eu volte pra me dizer coisas de amor.
Foste embora tão repentinamente que estranhei: ainda permaneces em mim. Teu cheiro, tua cor, teus olhos, tuas palavras sussurradas, tuas -nossas - músicas, tua voz, teu riso contagiante, tuas mentiras sinceras e histórias mal contadas... Porque não levaste os teus próprios pedaços? Já cansei de carregá-los pra qualquer lugar que vou.
Sabe-se lá porque que eu fui inventar de te fazer de abrigo. Eu sempre soube desse teu jeito desapegado de tudo, mas quem manda ter um coração cheio de defeito? Pedi pra trocarem assim que descobri o que havia de errado, mas me disseram que não tem garantia. Se quiser conserto, tem que esperar por alguém que queira fazê-lo. Mas quem? Parece que ninguém mais tem esse problema. Repito pro meu coração inúmeras vezes: "descansa, coração, descansa... amar não é pra você", mas ele não obedece, afinal, não seria agora que ele começaria a acatar minhas ordens. Ama desgovernado e não tem nada que o impeça quando ele realmente quer. Vai no compasso da dança que lhe convir - ou não -, e não escuta mais ninguém, só seu próprio som.
Fecho os olhos para deixar de pensar um pouco em ti e mesmo assim, só te vejo. Meu coração bate com teu som, e mesmo que eu não queira, cada palavra minha tem uma ponta tua. Cansei de tentar te evitar... Não me cures mais de você, só volta e fica ao lado meu. Recuperaremos o que foi perdido, dentro de nós só haverá primavera...
Quando voltares, meu bem, não haverá mais hora... O tempo esperará por nós, para guardar nosso momento, como se fosse uma caixa de lembranças.
Sabe, acho que a gente idealiza demais o amor... É tudo tão difícil de acontecer, de existir e de ser, realmente. Eu já cansei de pedir pra que chegasse um amor daqueles de cinema pra mim... Cansei de implorar, de esperar. Deixa pra lá, né? Daqui a pouco vai estar chegando um, novo em folha... Dizem por aí que o amor é imprevisível, mas eu sei prever quando ele pode chegar.
Ele chega quando a gente menos espera.
