Agradecimento aos Meus Pais Já Falecidos

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Já fui engolido pela sombra da depressão, rendido a desistências repetidas, contudo, aprendi seus segredos. Hoje acendo faróis na noite de outros, ofereço a mão que me foi estendida, sei guiar por atalhos do labirinto onde tantas vezes me perdi.

No breve tempo que me ausentei, ao regressar, percebi que já não era o mesmo. Os sentimentos haviam se esvaído como água entre as mãos, e em meu peito apenas o silêncio se aninhava. Aquele eu que um dia partira, morreu no exílio do tempo e jamais retornaria. Em seu lugar, restou apenas uma sombra errante, um eco de mim mesmo, condenado a habitar a casa, mas nunca mais a pertencer a ela.

O passado não dita meu futuro, apenas mostra o quanto já venci.

Um dia eu já chorei por perder tudo, hoje choro por gratidão, as lágrimas mudaram de endereço, meu rosto aprendeu outro brilho.

Na dúvida, aceitei o engano como professor, reajustei velas e segui adiante, o vento já conhece meu nome.

Já fui menor que meus erros, sou maior que minhas correções, a autoexigência agora vem com compreensão, o balanço me mantém em pé.

Já calei rancor por necessidade de seguir, o perdão foi tática e libertação, caminho mais leve por ter largado peso.

As pessoas vivem em modo de sobrevivência, zumbis funcionais, presas a rotinas que já não questionam. São espectros de si mesmas, movem-se, mas não despertam, respiram, mas não vivem.

A dor já não me define, me informa, ela sinaliza o que cuidar e o que transformar, não mais sou refém do que passou.

Já chorei por não entender. Hoje, sorrio por ter sobrevivido.

Já fui ferida, hoje sou ferramenta.

Já fui tempestade, hoje aprendi a chover com calma.

Já fui preso ao passado, hoje sou livre na gratidão.

Já caminhei sozinho, mas nunca sem direção.

Já quis desistir, mas Deus me segurou pelo invisível.

Já tive medo de ser visto, hoje temo não ser verdadeiro.

Já fui inverno, hoje sou primavera em reconstrução.

Já fui ferido por quem dizia me amar, e aprendi a me amar primeiro.

Já chorei de raiva e de gratidão, ambos me fizeram humano.

Já perdi tudo, e ainda assim não perdi a fé.