A Medida que o Tempo Passa

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​Minha mente é um calabouço, frio, escuro e esquecido. Aqui dentro, o tempo é relativo, um nó entre o passado e o presente. Tudo é confuso, há mais perguntas que respostas. Não sei quanto tempo faz, nem se a liberdade é uma promessa real. Enquanto o fim não vem, vou aceitando esse estado de sobrevivência.

Trago no peito a lembrança de um tempo simples, onde o riso corria solto e a vida cabia inteira na inocência de dois caminhos que ainda não conheciam despedidas. Éramos feitos de chão, de poeira e de afeto bruto, desses que não se explicam, apenas se vivem, como se o mundo fosse pequeno demais para nos separar. Mas o tempo, silencioso e inevitável, foi abrindo distâncias onde antes só havia presença, transformando parceria em memória. Hoje carrego comigo aquilo que ficou, não como peso, mas como parte de quem me tornei, marcado pelas ausências que ensinaram mais que qualquer permanência.
Porque existem laços que nascem lado a lado, mas o destino insiste em escrever em caminhos diferentes, deixando na alma a saudade do que poderia ter sido eterno.


- Tiago Scheimann

A espera pelo primeiro amor não foi apenas tempo, foi vida doada. Foi a paciência de quem cultiva uma flor em solo estéril, acreditando que o amor, por si só, teria o poder de fazer brotar a reciprocidade.

As pessoas são muito boas em me decepcionar, mas o tempo me ensinou que a maior mudança não está nelas, está na minha coragem de enxergar quem realmente merece permanecer, e na força de deixar ir quem nunca soube ficar.

​Às vezes, o olfato me trai e me devolve aquele cheiro ferroso, acre, de um tempo que eu gostaria de ter deixado para trás. Vejo-me novamente confinado naquelas caixas de concreto frio, em quartos de hospital onde o sol nunca ousava entrar com força. A memória é um curto-circuito, flashes de um ambiente sem relevo, uma monotonia de cinzas onde o único relevo era o barulho incessante das máquinas monitorando o que nos restava. É uma lembrança que não flui, ela fere em fragmentos frios e mecanizados.


- Tiago Scheimann

O que eu era não resistiu ao tempo, ficou como poeira em um quarto fechado, não me reconstruí, apenas atravessei o que me quebrou eno que restou, ainda há algo que insiste. Eu sobrevivi.

Às vezes, o café esfria no balcão enquanto a gente assiste ao tempo passar pela janela, percebendo que a pressa do mundo é apenas uma tentativa desesperada de não encarar o fato de que a beleza real mora no que é lento, no que dói devagar e no que se cura sem alarde.

O problema de ser forte o tempo todo é que as pessoas esquecem que o aço também cansa, que as vigas também rangem sob o peso da estrutura e que, às vezes, o que o herói mais precisa não é de uma capa nova, mas de um colo onde possa finalmente desabar sem julgamentos.

As janelas da alma ficam embaçadas quando seguramos o choro por muito tempo, impedindo que enxerguemos as cores do mundo, permita que as lágrimas limpem o vidro, mesmo que a visão inicial seja a de um jardim devastado, pois só assim você poderá começar a replantar.

O tempo é um escultor que usa a dor como cinzel para esculpir em nós uma beleza que a superfície desconhece, uma luz que só emana de quem já foi moído pelas engrenagens do destino e se reconstruiu com o ouro da experiência. A vida não nos deve nada, e é nessa falta de garantias que encontramos a nossa maior liberdade. No fim, o que resta não é o que acumulamos, mas a forma como permitimos que a existência nos atravessasse, transformando o nosso barro em estrela.


- Tiago Scheimann

Carrego em mim versões que não resistiram ao tempo. São fragmentos de quem eu fui e precisei abandonar para seguir adiante. Às vezes sinto falta até das dores antigas. Elas, ao menos, eram conhecidas, este vazio novo ainda me nomeia.

O tempo não cura tudo. Ele apenas nos ensina a conviver com o que sobrou. Aprendemos a reorganizar os cacos, a dar novos nomes às antigas dores, e a continuar, ainda que incompletos.

Nem toda cicatriz deseja ser curada. Algumas existem para lembrar que houve um tempo em que sobreviver exigiu mais coragem do que qualquer palavra conseguiria explicar.

Com o tempo, percebi que algumas feridas não cicatrizam, elas apenas aprendem a respirar dentro de nós sem chamar tanta atenção.

A alma humana possui ruínas que nem o tempo ousa tocar.

Quando ninguém me espera, o tempo perde sua educação e mostra que a existência não tem plateia, tem apenas presença.

Passei tanto tempo construindo muralhas contra a dor que, quando o amor finalmente chegou, encontrou apenas ruínas e portas enferrujadas.

O tempo não cura ninguém,
apenas ensina a dor a falar tão baixo que a confundimos com maturidade.

O tempo possui uma crueldade silenciosa: transforma as maiores tempestades em lembranças, mas nunca devolve aquilo que elas levaram.

O tempo não cicatriza, ele apenas sofistica o abismo. Sua função não é curar a dor, mas domesticar o grito, transformando o sofrimento crônico na melodia de fundo que a nossa normalidade exige para continuar fingindo que avança.