Aline Diedrich: O relógio que não contava as horas...

O relógio que não contava as horas

Cidade grande. Prédio do centro. Carros que não paravam de buzinar e nem respeitavam o dia do rodízio. “Quem faz rodízio é pizzaria” dizia ele, “e de pizza o País já está saturado”, enquanto observava da janela do apartamento (apertamento) o movimento na rua, o empurra-empurra de pessoas na calçada, e até mesmo as crianças que brincavam na pracinha ali perto.

Queria sair. Caminhar no meio da baderna. Ser um pouco baderneiro. Se sentir artista de rua e ganhar dinheiro no chapéu. Mas nada disso seria possível, porque ainda era visto como um ser de outro mundo, e assustava gente por onde passava: se tratava da pessoa que andava para trás.

O mais esquisito de tudo, acredite caro leitor, é que seu corpo era perfeito (perfeito dentro dos padrões): fotogênico não tinha igual, bem vestido, voz estonteante e se expressava como ninguém. De que adiantava ser tão bonito se não poderiam ver tamanha beleza, exceto alguns amigos próximos e seus familiares?

Tentava, sozinho, se impulsionar. Se jogar para frente sem ajuda dos outros. Mas nada! Sempre voltava ao ponto de partida como se uma força maior e surreal o puxasse pelos braços – ou pés, não se sabe explicar – e o fizesse ficar parado, sentado e elegante diante um espelho bem grande.

Conta a lenda que não quis mais alimentar-se, no entanto, passou a viver de ar e logo desistiu de seu propósito mal sucedido. Foi nesta noite que adormeceu ali mesmo e quando acordou se sentiu tão feio. Desarrumado. Despenteado. Fedorento. Possuía a pior das anomalias: não sabia andar para frente.

Então entendeu: precisava se desprender de preconceitos, enxergar o belo que habita por trás do físico e conhecer a alma. Precisava evoluir para deixar de ser como aquele relógio velho e enferrujado que apenas ocupava espaço na parede da sala.

Já havia passado da hora de ajustar os ponteiros.

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Inserida por alinediedrich