Gabriella Beth Invitti: No vão da memória. Aqueles textos que...

No vão da memória.

Aqueles textos que se escreve apenas para liberar a mente. Sem muitos propósitos, sem muito sentido...


Entre uma leitura e outra é sempre gostoso dar uma descansada nos olhos e vir a escrever. Nas linhas de palavras meigas que acabo de ler, recordo-me de momentos felizes vividos em férias passadas. Como ainda sinto presenças que aos poucos não pertencem mais ao meu presente. Como ainda doem feridas que não me fizeram chorar, mas me ensinaram muito. Como ainda tenho os mesmos medos de quando era uma criança miúda de cinco anos a chegar nesta cidade.
Pavorosos eram os invernos em que me pus a chorar calada na escuridão da noite em que só se podia ouvir o barulho do vento tocando as árvores. E, que, a memória teve a brilhante idéia de apagar a dor, mas de não esquecer os motivos. Como ainda ontem, que sozinha olhando a televisão ainda virava o rosto para fitar os lados e ter certeza que os meus medos não estavam perambulando por ali.
Ainda não posso, não consigo confiar, tudo que quebra um coração ao meio. Escondo-me em cascas falsas para não notarem a fragilidade de uma alma, que nos muitos desconfortos se deixa aberta e todos a notam. A tristeza teima em vir, mas as lágrimas eu sempre consegui segurar. As malandrinhas às vezes molham os olhos, mas em uma coisa em sempre fui muito eficiente: segurá-las – lágrimas malditas! Em exceção a lágrimas de alergia, essas que, escapam em dores físicas monstruosas.
Olha que desenhei um coração agora pouco na palma da minha mão, sem nada a preenchê-lo. Nada, definitivo. Como muitas vezes fiz, logo que aprendi a desenhar não me recordo com que idade, mas logicamente ainda miúda. – Em meio à triste adolescência das dúvidas e confusões, minha alma permanece, não sei se bem ou mal, com a mesma essência dos cinco anos que aqui cheguei. Um pouco mais crescida, talvez. E mais preparada, com certeza. Mas ainda a menininha cheia de sonhos e medos, com quase os mesmos gostos e o desgosto por bife de fígado.
A mesma menininha que junto com o irmão mais velho, depois de uns dias nesta cidade pequena e desconhecida – na época. Ganhou um cachorrinho, branco com uma mancha preta no olho direito, e, que recebeu o nome tristemente engraçado de Magnata. Tristemente, pois este, não era de seu gosto – sempre enjoado. Mas aos poucos, rendeu-se a graça do nome, e, ao amor leal de seu cachorrinho que segue junto até hoje. E, que, não posso nem pensar em perder meu fiel companheiro das fugas rápidas de casa quando mamãe me reprimia por receber reclamação das professoras do primário.
Minha memória, sempre tão boa e sempre tão ruim. Guarda detalhes dispensáveis aos outros olhos, mas ricos aos meus buscadores de horizontes. Penso que, muitas vezes, ela poderia me deixar em paz, ou me dar umas férias. Porque é triste estar em constante pensamento, sem pausa, sempre pensando, sempre lembrando, sempre criando. E, quando chegar à noite, ela ainda teimar em funcionar e de tanto funcionar, me tirar o sono, e, buscar medos que não deveriam mais estar aqui. Pois já passaram... Pois, nem sei tão bem se ainda são meus. Mas eles vêm, teimam em vir, com a mente que não para e implora por devidas explicações.
Uma mente de pássaro! Que voa sem parar... Talvez seja o fruto de grandes pensamentos, ou, talvez de pensamentos não tão bons assim. Mas, de uma coisa é certa, ela há de enriquecer minha memória com momentos que vão acalmar meu coração, que também voa e distribui sentimentos.
Pois mesmo ela sendo minha maior e pior inimiga, ainda é minha melhor amiga. Que me acusa nos erros, me parabeniza nos acertos. E, não me faz esquecer aqueles beijos e abraços, aquelas mãos e aquele perfume, que tão meigas linhas de palavras que acabo de ler me fizeram recordar, aos prantos de amor.

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Inserida por gabiiinvittti