R. S. JABIS: CONSUMAÇÃO Caindo de século em...

CONSUMAÇÃO

Caindo de século em século
Rolando como chuva sobre os telhados da cidade taciturna
A procura de seu olhar, desses nostálgicos discos de Valquiria
Estive a viajar a sentir a dureza dos paralelepípedos
Como o pó que de suas faces se erguiam
Na passagem dos pensamentos de vidas diluídas

Estive a viajar fui esse pássaro nefasto
Que cantava noite e dia tentando te chamar
Fui em todas as catedrais
E como elas me tornei uma profecia antiga
Que ninguém se lembra mais.

Fui, nasci antes do primeiro dia
Não sou nem essa pele escura das estrelas
Nem esse verde bosque que de si mesmo alimenta
Passei tanto tempo na estação dos mortos
Esperando o trem da vida
Que o próprio cansaço me deixou e mudou de negócio

Vivi a mais árdua e sangrenta guerra
Os anjos mais extraordinários tentaram roubar meus sonhos
Mas eu me mantive num só sonho agarrado
Como na terra fica agarrado o oceano

É eu te procurei nas mais altas nuvens
E nas mais lúgubres cavernas
Deixei de ser homem voltei a ser bicho
Para te cheirar caso fosse uma fera

Tanto tempo me enfeitando de brilhos
Para ver meus olhos serem comidos por pequenos fachos
O meu amor é tanto e o desejo tão limpo
Que todos os amantes do mundo com ele tem se amado
E nenhum amante meu amor tem tido

O meu destino é solitário até sua melancolia
Dormi épocas inteiras nas vielas mais frias
Junto dos cães que também não se encontraram
Tive muitas companhias de capa dura e letras douradas
No último século eu li Dylan
E talvez tenha tocado o intocável Rilke numa recordação
Ou corda de violino, talvez ele tenha me sentido quando dormia ao meu lado, solidão profunda tem nos unido
Fomos notas perdidas
No espaço
Sem ar que as respirassem.

E nessa forma estranha a vida
Em que morreu até meus versos
Virei corpo que sem seu corpo
Sublinhou a geleira do universo
Como mais um cadáver exposto
Ou as montanhas esmagadas num deserto

E nessas revoluções todas temos nos encontrado
Uma vez enquanto passávamos na multidão
Nossos dedos se cruzaram
Se os dedos foram dispersos como uma escada de números
Que sobe e desce sem chão firme
A sensação ficou nos meus dedos como um anel de noivado
Ou a consciência de quem cometeu um crime

Continuei essa procura
Porque no coração carregava a loucura
De que você estava no mundo
Mulher para ser encontrada
E assim como o sol de tao longe da vida a lua
Você a mim também tem dado a vida sua
Amada

R. S. JABIS

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Inserida por RSJABIS