Meire Moreira: O cheiro do ciúme Eu devia ter uns seis...

O cheiro do ciúme
Eu devia ter uns seis anos mais ou menos e gostava de ficar sentada na beira da calçada olhando o movimento na rua. A casa em frente era um pouco mais alta que o nível da rua e tinha uma pequena escadaria. De repente vi surgir uma bola de fogo caminhando e gritando em direção a rua. Lembro-me da roupa diluindo-se nas chamas e as sandálias grudando no chão da escada.
Era uma mulher e pedia por socorro. Lena era o seu nome. Era casada e tinha uma filha bem menor que eu. Morava nos fundos daquela casa, que era de sua mãe e irmãos. Num espaço de tempo que eu não consigo precisar, a rua se encheu de gente e me lembro de sua mãe saindo pela porta com um cobertor e com ele apagando as chamas enquanto a cobria.
Nos dias que se seguiram, mesmo sendo uma criança, eu acompanhei o desfecho daquela história. Lena agonizava num Hospital para Queimados. Se sobrevivesse seria uma chaga viva, com cicatrizes por todo o corpo.
Sei que ela morreu 40 dias depois. Que foi velada num caixão lacrado. A família assim preferiu, pois ela havia ficado desfigurada. Naquela época, eu não tinha a menor ideia do que tinha acontecido ou por que. Sabia que por algum motivo, ela mesma havia ateado fogo ao seu corpo usando álcool. Por ciúmes do marido havia decidido por fim a própria vida. E conseguiu.

Anos mais tarde, aconteceu de novo. Dessa vez, era uma pessoa próxima, uma amiga. Sem conseguir dosar o próprio amor e dominar a possessividade que sentia, ateou fogo em seu corpo e usando o mesmo combustível.
Numa recuperação lenta e dolorosa, aos poucos foi se refazendo. Num corpo que se refazia pouco a pouco, uma alma agonizava. A plástica reparava um pouco as cicatrizes, mas os ciúmes ainda corroíam o que sobrara de humano naquele corpo.
O casamento degringolava mais e mais. Se o ciúme atormentava uma mulher bonita e segura, agora ele moía qualquer chance de agir com segurança e maturidade. O espelho lhe mostrava isso. O rosto ficara para sempre marcado com o gesto impensado.
As cicatrizes aumentavam a insegurança e a insegurança alimentava os ciúmes.
Por fim, o casamento acabou naufragando como um barquinho de papel engolido por aquelas chamas.
Eu poderia me estender aqui mais um pouco citando trechos de Otelo, ou lembrando o fatídico caso Eloá. Ou me aventurar traçando uma analogia entre o ciúme e o Mito de Procusto, onde o que não se encaixa é cortado, ou mesmo se encaixando, é ajustado para desapontar. Mas é tolice... As duas histórias tristes e reais dão conta do recado.
De alguma maneira, isto ficou gravado em mim. Ainda hoje quando vejo alguém demonstrando ciúmes, sinto o cheiro do fogo, de coisa queimando... É como se as pessoas começassem a se dissolver na minha frente, como aquelas roupas e aquelas sandálias.
Mas me sinto como a criança que sondava entre as pernas dos adultos, alguém ser socorrido por cobertas sem poder fazer nada. O ciúme chega até mim como aquela bola de fogo incontrolável que vai consumindo tudo em volta. Depois das cinzas não reconheço mais nada.
Numa experiência sinestésica vejo tudo o que o ciúme aprisiona: a vontade, os desejos, os planos... E sempre aquele mesmo cheiro. Não pode haver nada de bom quando alguém, por medo que você voe, lhe corte as asas. Muito menos, em nome de um amor doentio, lhe prive de tudo. Em nome do que sentem, eles sofrem e fazem sofrer. E em algum lugar alguém assiste a uma tragédia personificada de amor. E carrega consigo lembranças ruins de uma rua, de uma calçada. De um amor desamor.
Meire Moreira

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Inserida por meiremoreira