Depoimento de Boa Noite para um Namorado

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Há dias em que a alma pesa mais que a gravidade, existir torna-se um exercício de resistência e respirar, uma escolha política.

Sigo em travessia, sem garantias de chegada, mas com a certeza de que a coragem de partir já foi uma vitória.

Sou um grito que aprendeu a cadência da respiração. A dor continua lá, mas eu aprendi a caminhar com ela.

Sustento um pedido de socorro mudo e polido. Ele não grita para não incomodar a vizinhança, mas sua existência é um ruído ensurdecedor.

Fiz da ausência um hábito, depois um vício e, por fim, meu próprio nome. Já não sei quem eu seria se o vazio me deixasse.

Há manhãs em que não desejo o fim, apenas uma pausa na consciência, um repouso de mim mesmo e do barulho da minha mente.

Nasci com um cansaço atávico, como se minha alma carregasse o peso de séculos e a esperança estivesse permanentemente em débito.

Sou um mosaico de tentativas imperfeitas. Nenhuma foi o bastante, mas todas foram entregues com a honestidade de quem tentou.

Meu maior pavor não é a morte biológica, mas a morte sensorial: tornar-me um autômato que executa rotinas sem habitar a própria alma.

A vida é um mestre severo: ensinou-me que amar não retém ninguém e que promessas são apenas palavras ao vento.

Administro um cemitério interno de sonhos anônimos, alguns têm lápides de luxo, outros foram enterrados vivos no esquecimento.

Não sou um objeto quebrado, sou uma obra em reforma perpétua, tentando alinhar as peças enquanto o chão ainda treme.

Guardo um grito educado que pede licença para ecoar. Como ninguém responde, ele fez do meu peito sua morada definitiva.

Sou um colecionador de perguntas sem respostas. Continuo indagando porque o silêncio total seria o início da minha rendição.

Carrego um luto sem rito de passagem, uma perda invisível que me transformou em alguém que eu ainda estou tentando conhecer.

Sou um pedido de socorro que se transmutou em literatura para não ser um fardo e, assim, garantir sua própria sobrevivência.

O vazio não se preenche, se integra. Com o tempo, ele deixa de ser um buraco e passa a ser a mochila que você aprendeu a carregar.

Minha mente é um canteiro de obras infinito, sempre há algo sendo demolido para que uma nova versão de mim tente nascer.

Habito o hiato entre quem eu fui e quem eu nunca serei. É um espaço desconfortável, mas é o único lugar onde sou real.

Não escolhi a resiliência, ela foi a única saída em um cenário onde a fragilidade era punida com o esquecimento.