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Agora vou falar da dol\u00eancia das flores para sentir mais o que existe. Antes te dou com prazer o n\u00e9ctar, suco doce que muitas flores cont\u00e9m e que os insetos buscam com avidez. Pistilo \u00e9 \u00f3rg\u00e3o feminino da flor que geralmente ocupa o centro e cont\u00e9m o rudimento da semente. P\u00f3len \u00e9 p\u00f3 fecundante produzido nos estames e contido nas anteras. Estame \u00e9 o \u00f3rg\u00e3o masculino da flor. \u00c9 composto por estilete e pela antera na parte inferior contornando o pistilo. Fecunda\u00e7\u00e3o \u00e9 a uni\u00e3o de dois elementos de gera\u00e7\u00e3o \u2013 masculino e feminino \u2013 da qual resulta o fruto f\u00e9rtil. "E plantou Jav\u00e9 Deus um jardim no \u00c9den que fica no Oriente e colocou nele o homem que formara" (Gen. 11-8).
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\nQuero pintar uma rosa.
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\nRosa \u00e9 a flor feminina que se d\u00e1 toda e tanto que para ela s\u00f3 resta a alegria de se ter dado. Seu perfume \u00e9 mist\u00e9rio doido. Quando profundamente aspirada toca no fundo \u00edntimo do cora\u00e7\u00e3o e deixa o interior do corpo inteiro perfumado. O modo de ela se abrir em mulher \u00e9 bel\u00edssimo. As p\u00e9talas t\u00eam gosto bom na boca \u2013 \u00e9 s\u00f3 experimentar. Mas rosa n\u00e3o \u00e9 it. \u00c9 ela. As encarnadas s\u00e3o de grande sensualidade. As brancas s\u00e3o a paz do Deus. \u00c9 muito raro encontrar na casa de flores rosas brancas. As amarelas s\u00e3o de um alarme alegre. As cor-de-rosa s\u00e3o em geral mais carnudas e t\u00eam a cor por excel\u00eancia. As alaranjadas s\u00e3o produto de enxerto e s\u00e3o sexualmente atraentes.
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\nPreste aten\u00e7\u00e3o e \u00e9 um favor: estou convidando voc\u00ea para mudar-se para reino novo.
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\nJ\u00e1 o cravo tem uma agressividade que vem de certa irrita\u00e7\u00e3o. S\u00e3o \u00e1speras e arrebitadas as pontas de suas p\u00e9talas. O perfume do cravo \u00e9 de algum modo mortal. Os cravos vermelhos berram em violenta beleza. Os brancos lembram o pequeno caix\u00e3o de crian\u00e7a defunta: o cheiro ent\u00e3o se torna pungente e a gente desvia a cabe\u00e7a para o lado com horror. Como transplantar o cravo para a tela?
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\nO girassol \u00e9 o grande filho do sol. Tanto que sabe virar sua enorme corola para o lado de quem o criou. N\u00e3o importa se \u00e9 pai ou m\u00e3e. N\u00e3o sei. Ser\u00e1 o girassol flor feminina ou masculina? Acho que masculina.
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\nA violeta \u00e9 introvertida e sua introspec\u00e7\u00e3o \u00e9 profunda. Dizem que se esconde por mod\u00e9stia. N\u00e3o \u00e9. Esconde-se para poder captar o pr\u00f3prio segredo. Seu quase-n\u00e3o-perfume \u00e9 gl\u00f3ria abafada mas exige da gente que o busque. N\u00e3o grita nunca o seu perfume. Violeta diz levezas que n\u00e3o se podem dizer.
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\nA sempre-viva \u00e9 sempre morta. Sua secura tende \u00e0 eternidade. O nome em grego quer dizer: sol de ouro. A margarida \u00e9 florzinha alegre. \u00c9 simples e \u00e0 tona da pele. S\u00f3 tem uma camada de p\u00e9talas. O centro \u00e9 uma brincadeira infantil.
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\nA formosa orqu\u00eddea \u00e9 exquise e antip\u00e1tica. N\u00e3o \u00e9 espont\u00e2nea. Requer redoma. Mas \u00e9 mulher esplendorosa e isto n\u00e3o se pode negar. Tamb\u00e9m n\u00e3o se pode negar que \u00e9 nobre porque \u00e9 ep\u00edfita. Ep\u00edfitas nascem sobre outras plantas sem contudo tirar delas a nutri\u00e7\u00e3o. Estava mentindo quando disse que era antip\u00e1tica. Adoro orqu\u00eddeas. J\u00e1 nascem artificiais, j\u00e1 nascem arte.
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\nTulipa s\u00f3 \u00e9 tulipa na Holanda. Uma \u00fanica tulipa simplesmente n\u00e3o \u00e9. Precisa de campo aberto para ser.
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\nFlor dos trigais s\u00f3 d\u00e1 no meio do trigo. Na sua humildade tem a ousadia de aparecer em diversas formas e cores. A flor do trigal \u00e9 b\u00edblica. Nos pres\u00e9pios da Espanha n\u00e3o se separa dos ramos de trigo. \u00c9 um pequeno cora\u00e7\u00e3o batendo.
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\nMas ang\u00e9lica \u00e9 perigosa. Tem perfume de capela. Traz \u00eaxtase. Lembra a h\u00f3stia. Muitos t\u00eam vontade de com\u00ea-la e encher a boca com o intenso cheiro sagrado.
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\nO jasmim \u00e9 dos namorados. D\u00e1 vontade de p\u00f4r retic\u00eancias agora. Eles andam de m\u00e3os dadas, balan\u00e7ando os bra\u00e7os e se d\u00e3o beijos suaves ao quase som odorante do jasmim.
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\nEstrel\u00edcia \u00e9 masculina por excel\u00eancia. Tem uma agressividade de amor e de sadio orgulho. Parece ter crista de galo e o seu canto. S\u00f3 que n\u00e3o espera pela aurora. A viol\u00eancia de tua beleza.
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\nDama-da-noite tem perfume de lua cheia. \u00c9 fantasmag\u00f3rica e um pouco assustadora e \u00e9 para quem ama o perigo. S\u00f3 sai de noite com o seu cheiro tonteador. Dama-da-noite \u00e9 silente. E tamb\u00e9m da esquina deserta e em trevas e dos jardins de casas de luzes apagadas e janelas fechadas. \u00c9 perigos\u00edssima: \u00e9 um assobio no escuro, o que ningu\u00e9m aguenta. Mas eu aguento porque amo o perigo. Quanto \u00e0 suculenta flor de c\u00e1ctus, \u00e9 grande e cheirosa e de cor brilhante. \u00c9 a vingan\u00e7a sumarenta que faz a planta des\u00e9rtica. \u00c9 o esplendor nascendo da esterilidade desp\u00f3tica.
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\nEstou com pregui\u00e7a de falar da edelvais. \u00c9 que se encontra \u00e0 altura de tr\u00eas mil e quatrocentos metros de altitude. \u00c9 branca e lanosa. Raramente alcan\u00e7\u00e1vel: \u00e9 a aspira\u00e7\u00e3o.
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\nGer\u00e2nio \u00e9 flor de canteiro de janela. Encontra-se em S. Paulo, no bairro de Graja\u00fa e na Su\u00ed\u00e7a.
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\nVit\u00f3ria-r\u00e9gia est\u00e1 no Jardim Bot\u00e2nico do Rio de Janeiro. Enorme e at\u00e9 quase dois metros de di\u00e2metro. Aqu\u00e1ticas, \u00e9 de se morrer delas. Elas s\u00e3o o amaz\u00f4nico: o dinossauro das flores. Espalham grande tranquilidade. A um tempo majestosas e simples. E apesar de viverem no n\u00edvel das \u00e1guas elas d\u00e3o sombras. Isto que estou te escrevendo \u00e9 em latim: de natura florum. Depois te mostrarei o meu estudo j\u00e1 transformado em desenho linear.
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\nO cris\u00e2ntemo \u00e9 de alegria profunda. Fala atrav\u00e9s da cor e do despenteado. \u00c9 flor que descabeladamente controla a pr\u00f3pria selvageria.
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\nAcho que vou ter que pedir licen\u00e7a para morrer. Mas n\u00e3o posso, \u00e9 tarde demais. Ouvi o \u201cP\u00e1ssaro de fogo\u201d \u2013 e afoguei-me inteira.
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\nTenho que interromper porque \u2013 Eu n\u00e3o disse? eu n\u00e3o disse que um dia ia me acontecer uma coisa? Pois aconteceu agora mesmo.<\/p>\n

\n \n Clarice Lispector<\/span>\n <\/a>\n \n <\/span>\n <\/span>\n
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\n \u00c1gua viva. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. <\/div>\n <\/div>\n <\/div>\n \n
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