
Confissões sem nome são palavras nuas a boiar na imensidão, como poderia alguém que as escrevera, não as assinar, não lhes atribuir um rosto?
Eu entristecia por Borges, Camões, Jonh Milton, James Joyce, Aldous Huxley, Roberto Bolãno... Ele tocou-me no ombro, era a ternura a falar por si.
- Temos um exemplo ainda mais árduo de limitação que cantou tantas histórias, Beethoven! Se a perda de visão não impediu os escritores de escreverem, imagine compor música sem ouvir... Tentei imaginar o inimaginável.
Como poderia ser uma crítica, escrever-se em bom português? Escrever em português dos egrégios talentos da escrita, sem o facilitismo da oralidade, mas com a gula das belas palavras de outrora, do excesso gramatical, jamais poderia considerar-se aparato ilegível, excepto se não se lesse ou não se soubesse ler os grandes.
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As palavras não são apenas para ser lidas, são também para ser vividas, sentidas e reflectidas.
No fim, o silêncio é a névoa espessa que apaga o mundo lá fora, deixando-o a sós com o eco de passos que a nossa mente ainda não deu.
Sabia que as nossas duas almas se tinham cruzado, não pelo olhar, nem pela fala, mas pela impressão íntima de termos partilhado o mesmo silêncio primordial.
A porta fechou-se atrás de nós com um som abafado, como se engolisse as palavras que aí deixámos em suspenso.
Confissões sem nome são palavras nuas a boiar na imensidão, como poderia alguém que as escrevera, não as assinar, não lhes atribuir um rosto?
Sentia a minha alma cada vez mais ameninada.
Talvez o sol não dourasse as lembranças, como ali, naquele momento no interstício de tempos, entre a noite e a madrugada.
Eles eram como os grãos de areia, aqueciam a pele da memória, mas escapavam entre os dedos de quem já não podia habitar o ontem e o amanhã.
A noite descia estranha e deslumbrante na Rua dos...
Uma alma de encadeamento e mutabilidade como o caleidoscópio encantatório, trazido pelo pai, de uma das muitas partes do mundo. Seria a minha alma, uma alma-caleidoscópio? Assim me pareceu!
Sorri, por entre as lágrimas, como a menina que fui, já não agarrada à mão da minha tão amada avó, mas para sempre, presa a ela, por lindas penas brancas a esvoaçar até ao Céu.
Não entreouvia as horas pregressas como uma tragédia, mas como um renascer de espírito meditado, aprendido e ensinado.
O tempo do esquecimento é um tempo com margens incertas. Não sei que idade tinha quando li certos livros nem se os li depois de nascer ou antes de existir.
O amor salvava-nos de tanto, da solidão, do egocentrismo, da inveja... Até da maldade. Quiçá se os senhores do poder se preenchessem de amor, recusassem a liderança prepotente. Juntos eram incompatíveis.
Os extremos da luz pareciam brincar nos cantos da rua. Também ali, existia um prenúncio de astro rei e noite.
Dizia a televisão que uma quantidade percentual elevada em Portugal, apenas conseguia ler e interpretar duas únicas frases seguidas. Estava tudo explicado!
Que espécie de cérebros existia a garantir que não éramos todos homens irmanados numa única humanidade?
Viria o juízo de braço dado com a idade ou com os dentes de siso?
A memória do corpo e da mente, passada, abria-me um leque imenso de perspectivas, de cenários sonhados pela criança que fui, que teimava em ser.
Como poderia ser uma crítica, escrever-se em bom português? Escrever em português dos egrégios talentos da escrita, sem o facilitismo da oralidade, mas com a gula das belas palavras de outrora, do excesso gramatical, jamais poderia considerar-se aparato ilegível, excepto se não se lesse ou não se soubesse ler os grandes.
Bernardo olhava-me em silêncio. Mas não era um silêncio qualquer, era um silêncio habitado. Os seus olhos tinham um cintilar quente, talvez de ternura, talvez de espanto, demoraram-se um pouco mais nos meus, como se quisessem dizer algo que as palavras ainda não sabiam.
Homens ínfimos, que desejavam o regresso de raças superiores, territórios conquistados, religiões perfeitas. A guerra era moda? Não! ERA O RETROCESSO ABSOLUTO DA HUMANIDADE!
Sentia-me observada, talvez os edifícios daquela rua me espiassem com a paciência das coisas antigas.
Um mesmo medo, um mesmo tremor. Um outro horror de gente crescida a ser obrigada à intrepidez que nunca desejara.
Bernardo encerrara-se em silêncio. Temi, naquela libertação e modo de me encontrar, que ele se alheasse ou se entediasse. Percebi que afinal, ele conspirava consigo próprio.
Olhei, já em antecipação, para o lugar do ruído de sobressalto, horrorizei-me. O horror susteve o grito, o medo sufocou-o e deixou-me paralisada.
Eram os meus filhos! Filhos do meu coração, tão amados e desejados, que habitavam cada batida da minha alma.
O vazio interior não era edifício ideal, antes casca de ostra sem pérola.
A noite avançava lesta, como só acontece quando as palavras se unem para dançarem uma valsa perfeita.
Senti que a delicadeza do mundo coexistia entre luz e escuridão, mesmo nas suas fissuras.
Naquele silêncio que enfrentava, onde as palavras não chegavam nem partiam, sentia-me perdida.
O amor não necessita de justificação, ama-se porque se ama, e isso basta! Quase como se fosse uma espécie de belo absurdo essencial.
A humidade da noite entranhava-se na minha pele, a pedra trajava-se a relento.
Trincou-me o tempo na face, menos bochechuda...
A ignorância dos instruídos, a arrogância dos narcisistas, a pequenez de almas que precisam da tirania para compensar a própria vileza, a avidez por territórios a conquistar, a exigir, não era conquista, era RECUO, O DECLÍNIO TOTAL DA HUMANIDADE!
Olhei o céu esmaecido, como se um anjo tivesse adelgaçado as cores.
Todos os mundos ficcionais que construímos e onde nos inscrevemos, como mergulho fundo, sem conhecer a sua profundidade, passam a ser o mundo próprio onde vivemos, onde nos esculpimos e nos enterramos na pedra erigida.
Poeta algum, mesmo que deposto na guerra da vida, será jamais derrotado pelo mais arguto crítico, pois só um detém a veracidade da Arte e de si próprio.
Tinha vontade de lágrimas! "Tenho vontade de lágrimas", escrevera Pessoa citando uma criança. Era a definição perfeita da sua própria experiência vivencial. Já éramos dois!
Como seriam considerados pela História, os assassinos de inocentes do século XXI? Aos olhos dos futuros cronistas, só poderia restar um único veredicto - uma humanidade miserável!
Teria eu o direito de forçar a entrada a quem me encarcerara por entre as páginas e as palavras?
Chorei lágrimas de extravio, de ausência, de amor imenso, já sumido. Teria eu, na adolescência, com tanto a acontecer e a descobrir, descurado aquele amor maior da minha avó?
Quão bom era pertencemos a décadas de manhãs!
Sabia que a esperança era capaz de ser o mais cruel dos enganos e, ainda assim, o único abrigo possível.
Entre o sol e a sombra, compreendi que os gestos humanos, grandes ou pequenos, definiam-nos tanto como a crueldade e a dor.
Talvez dessa forma, conseguisse envolver a noite que avançava, com condição de estação florida, aquém e além, do meu olhar de ser despojado.
Apenas o sonho, o orvalho da alma, divulga sermos gente de idade experimental.
Viver é arriscar! Escrever é aventurar-se e largar os arneses da vida!
Ria-me dos meus erros visuais como me tinha rido dos de Mr. Magoo.
Na franja solitária, sorri à vida apenas vivida naquele espaço fadado pelo enrodilhar da brisa esfacelando o sonho.
Aquela cor que não era sol nem lua, mas a terceira luz, a que só acendia onde o tempo se esquecia de passar.
Bem-amada era a infância que se movera até mim.
Era a diferença rara do engenho contra a banalidade, o traço único permitia o alcance da arte.
Humanidade em latim, "humanistas", significa; o conjunto de seres humanos, a natureza humana e, ainda, um sentimento benévolo e solidário em relação aos outros. Onde se encontrava essa humanidade?
Recolhi a lembrança como quem apanha pétalas depois da chuva.
O que éramos nós, sem o assombro, o espanto, a sensibilidade? Conchas do Mar Morto? Perfeitas por fora, mas sem trazer o som do mar encostado ao ouvido, apenas o sussurro seco do próprio deserto.
Do pouco que me recordava, jamais me encapotara perante as múltiplas vicissitudes, se era resiliente e audaz, apenas o devia a Deus e à vida.
As dores eram, naquele tempo límpido, apenas rasgos de vermelho, isentas de crescidos cuidados.
Voltei-me assustada. Ninguém! Apenas o encarvoado das fachadas e o azul invisível do céu a cair sobre mim.
Num mundo de assimetrias, onde os extremos se isolam e os excessos asfixiam a alteridade, a convivência torna-se apenas uma sombra do que poderia ser.
Abri os olhos e constatei que o destino azulineo no céu, ameniza os dias actuais, isentos de ceifeiras, isentos de humanidade.
Olhei para dentro de mim, era lá que habitava a memória inaugural.
Como se de um milagre se tratasse, nasceu claridade amarelada daquele lampião.
Quem ama não faz do poder a sua âncora, mas sim a sua asa.
Dois gestos singelos, prefaziam o verbo manuscrever. E soltaram em mim, a beleza da escrita à mão e a memória intacta de sonhos, pensamentos de vida registados no papel.
Sabia, contudo, que a memória do amarelo cintilava em mim como folha de ouro dos afectos largados.
Corajoso não era aquele que não tinha medo por inconsciência, mas sim o que tinha medo e sabia que, independentemente de tudo, tinha que avançar.
Quem só almeja o poder, acaba por naufragar em si mesmo, perdendo o rasto, que não seja o seu próprio reflexo.
Como se um sonho mau me tivesse virado do avesso.
Xana
O pai ensinara-me a sensibilidade, a avó adivinhara-o desde sempre. O futuro di-lo-ia em susto permanente.
De uma passada já segura, evolou-se uma pena branca. Tentei agarrá-la, fugiu-me. O celestial não se apanha, vem até nós através da alma.
Ali, prostrada, percebi que o tempo vindouro que relembrava, se tornava pretérito...
É uma autêntica maldição sentir demais. Pensar demais. É talvez uma benção saber sentir. É talvez uma benção saber pensar! Mas chega sempre o momento em que já não basta pensar. Nem somente escutar.
O amor autêntico liberta o outro da necessidade de domínio.
Mr. Magoo divertia-me tanto. Mal sabia eu, que viria a ter destinos tão semelhantes.