Coleção pessoal de SilvioFagno

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⁠O Peso das Coisas que Escrevo -

É sempre um alívio concluir
alguma coisa:
um pensamento, uma canção,
um poema.
Ainda que o processo de fazê-los,
algumas vezes,
seja torturante, carregado,
penoso.
Mas, vê-los alí, prontos,
de certa forma,
alivia-me.

Mas concluí-los não é encerrá-los,
e eu preciso conviver com o peso
das coisas que penso, que faço,
que escrevo:
As canções e seus motivos; os poemas
e seus motivos; os motivos
e o pensamento.

Quando escrevo, escrevo por
alguma necessidade urgente:
às vezes algo;
às vezes alguma coisa;
às vezes alguém.

Mas as coisas e causas mudam,
passam.
As coisas e pessoas mudam,
rapidamente mudam,
se vão.

Mas os poemas e pensamentos não.
Eu os fiz nascer e preciso dar conta
deles agora, não posso
abandoná-los.

Eu senti as canções chegando, nascendo, ganhando forma, alma, intimidade.
É preciso, vez ou outra, cantá-las.
Sim, cantá-las, ainda que sangrando,
ainda que sussurrada, cantá-las,
ainda que emudecendo, ainda
que em silêncio.

Aquilo que escrevo tem o peso
daquilo que sou.
E ninguém mais, além de mim mesmo,
precisa carregar isso.

Sílvio Fagno

⁠Aprisiona Os Dois –

A grande maioria de nós,
de alguma maneira,
deve algo, alguma coisa
a alguém.
E, isso, no fim, numa relação,
de certa forma, prende,
aprisiona os dois.

Assim,
um rompimento ou uma permanência
nessas circunstâncias, abre uma enorme
cratera de dúvidas, traumas, mágoas...
decepções na alma de,
pelo menos,
um.

Raramente, muito raramente os dois
podem decidir ficar ou
partir em paz.

Sílvio Fagno

⁠Tal Como É –

Olha só que céu lindo esta
noite. — eu disse a ela.

Mas não está um pouco
nublado? — respondeu-me.

Sim, sim. — eu disse-lhe.
Mas ainda assim,
tão belo quanto ontem ou
há três dias.

Na verdade,
o encanto, a beleza, a graça das coisas
se perde somente nas pessoas.
A coisa ainda tá lá,
tal como é.

E,
no fundo,
quase todo problema
é gente.

Sílvio Fagno

⁠Costas Nuas –

Despertei-me primeiro que ela,
um pouquinho antes do
sol nascer.

O quarto ainda estava um pouco escuro.
Havia, somente, uma pequena réstia vindo
por uma fresta da janela entreaberta,
de cortinas mal fechadas, que,
poeticamente, alcançava
suas costas nuas.

Fiquei ali,
parado. Bobo.
Observando ela dormir, enquanto
o pequeno raio de luz, delicadamente,
beijava suas costas nuas.

Era o sol nascendo lá fora.
E um sonho acontecendo
cá dentro.

Sílvio Fagno
Tags: poesia autoral

⁠Maldito Sentimento Verdadeiro -

⁠Há guerra pior do que a que precisamos
matar nosso próprio coração
(já mutilado, esgotado),
infectado por um inútil e maldito
sentimento verdadeiro,
fielmente
não correspondido?

Sílvio Fagno

⁠A Frieza -

Gosto de gente interessada naquilo
que ouve, fala e faz.

Gosto de pessoas que se empolgam
ao falar de coisas simples.
Simples e nobres: um poema, um livro,
um filme,
o pôr do sol visto através de uma
vidraça quebrada.

A frieza das pessoas me desestimula,
me põe pra baixo, me desanima,
a ponto de me deixar quase
sem ação.

Logo,
eu procuro o caminho mais curto
da conversa e tento encerrá-la,
o quanto antes, por
alí mesmo.

Sílvio Fagno

⁠Ainda Éramos Nós -

Eram sete e dezessete de uma noite
quente de segunda-feira, de um
fevereiro sem Carnaval.
E lá se vão quase duas décadas
de amizade.

Éramos jovens, cheios de sonhos
e de tempo,
e nem imaginávamos que,
quase vinte anos
depois, (meio às pressas),
ainda estaríamos assim, como antes.

Muita coisa aconteceu
desde então:
algumas nasceram para o bem,
outras se perderam,
mas, enfim,
ainda estávamos alí por algum motivo.
Por tantos motivos, afinal, mas
por uma única razão:
Ainda éramos
nós.

E,
então,
alí, naquele local,
por alguns segundos,
entre uma palavra e outra,
entre um acorde e outro,
entre um riso e outro,
eu reparei em nós quatro ali juntos
como nos velhos tempos,
como nos últimos encontros a cada
três anos e, enquanto nos despedíamos,
eu pensei:

"Poxa, será que teremos a chance
de um novo encontro?
Droga,
ainda somos tão jovens,
eu não deveria estar pensando
nisso."

Mas eu pensei.

Sílvio Fagno

⁠É de Partir o Coração, e Eu Sei. Mas Eu Preciso Dizer -

Quando sentir que tem algo imenso,
nobre e cuidadoso, alimenta-o
de mais vontade.

E se por acaso houver uma enorme
distância contra esse amor,
resista:
continua firme, diminuindo-a.

Se além disso há pessoas lutando
contra essa união,
mostra-se mais forte e corajoso
que essas,
e siga adiante, firme, em nome desse
sentimento.

Se ainda assim o mundo tentar impor "dificuldades", tais como:
Classe social;
Cor da pele;
Ou religião, então, revoluciona:
Inventa uma liberdade qualquer ou qualquer outra coisa sem nome, e continua mais
firme ainda.

Agora, se tem um sentimento imenso,
nobre e cuidadoso, e a única coisa
contra esse amor é o outro,
sinto muito. Sinto muito
mesmo:

É inútil!

Sílvio Fagno

⁠Desejo -

Não somos mais que a vontade de nos ver no outro.

Sílvio Fagno

⁠Abraço a Tristeza e Descanso -

Eu sinto-me menos mal quando
decido estar triste ao invés
de irritado.
O estado de tristeza incomoda,
machuca,
porém muito menos do que
o de fúria.

A tristeza costuma acolher-me e,
de certo modo, acalmar-me.
A fúria não.
A fúria é destrutiva.
Extremamente destrutiva.

A maioria tem-na como uma forma
de defesa e de ataque, mas,
na verdade,
ela ataca-nos na mesma
intensidade, e isso causa um
enorme mal.

Prefiro ser um tolo triste e, talvez,
sábio — recolhendo-me e ficando
em silêncio —
a ser um tolo furioso e idiota,
cheio de ódio.
(Ainda que a vida cobre‐me o contrário).

Entre estar furioso ou estar triste
(em silêncio), afasto-me:
abraço a tristeza e descanso.

Sílvio Fagno

⁠Um Convite -

A noite foi péssima, o dia está
cinza,
mas eu amanheci.

E como quase sempre me sinto melhor
mais nos dias cinzas de
tempestade
do que nos dias dourados
de sol,
a escuridão da noite tem se tornado
um convite quase que irrecusável
à luz:




Interna.

Sílvio Fagno

⁠Quase Ninguém Vê –

Há sempre uma tragédia acontecendo
por trás de cada "estou bem",
"é normal", "não ligo", e
quase ninguém vê.

Infelizmente,
normalizamos e banalizamos
algo tão sério:

O coração das pessoas.

Sílvio Fagno

⁠Aqueles Tempos –

Que tempos foram aqueles:

A lua,
ainda quando era apenas
um pequeno risco feito a giz no céu,
em mim,
era o universo inteiro.

Sílvio Fagno

⁠Golpe Baixo –

E de repente você pensa
em quanta coisa conseguiu fazer esta semana:

De quantos oportunistas conseguiu desvencilhar-se;
Quanta gente idiota, mesquinha
e mau-caráter conseguiu
evitar, entre ir ao supermercado pela manhã e tentar entender o porquê de tanta coragem
antes de dormir
à noite.
E, naturalmente, há algo
a ser comemorado.

De certo modo, você tem
sido forte:
tem conseguido controlar alguns
desejos impulsivos, algumas paranóias, alguns medos.
E tudo isso, por enquanto, tem segurado-o.
E isso é bom, ainda que passe.

Mas quando você acha que,
finalmente, está começando a dominar o adversário, a luta
— o jogo — de repente,
com um simples descuido, acontece o golpe fatal.
E lá está você, outra vez, nocauteado, dominado, vencido.

Golpe baixo, às vezes,
é algo te fazer lembrar
dois belos olhos castanhos
e uma boca carnuda
mordendo você.

Sílvio Fagno

⁠O Cão Triste –

Certa manhã, enquanto eu cruzava um terreno que fica atrás da
minha casa,
fui surpreendido por um cão
que está sempre preso
naquele local.

Ao passar perto do animal
e quase pisoteá-lo,
ele tentou, por duas vezes,
morder-me.
No susto eu o olhei e,
só então, vi:

Olhos de tristeza. — tristes olhos de mágoas e tristezas de um pobre cão preso.
E eu quase o pisei.
O pisoteei em todos os outros
dias quando o ignorei.

Então, ele olhou-me com seus olhos de remela e mágoas e tristezas e, como num
clamor, parecia dizer:

"Olha, a minha vida é isto — esse chão sujo, áspero, quente, de dias e noites de solidão, preso a uma corda velha e suja, já tatuada
em meu pescoço.

Eu não sou aquela pedra imóvel
e alheia a tudo que está
aí à sua frente.
Nem esses gravetos secos e ponteagudos próximos
aos seus pés.
Eu emito sons, eu pulo, eu corro, eu me alimento, eu sinto dor,
eu preciso de carinho e cuidados, e dizem até que sou o melhor amigo do homem.
Mas, e o homem?

Vivo neste mísero espaço de terra e entulho desde que cheguei
aqui, amigo.
Nem nome deram-me.

Vejo outros cães livres (com seus problemas), mas livres — sem uma corda presa ao seu pescoço — servindo para lembrar-lhes que há uma saída, uma última saída,
mas, para mim, nem essa."

Aquilo me cortou o peito,
e tudo que eu pude fazer foi ir até minha casa, juntar um pouco de comida e água e levar até aquele sofrido cão revoltado que, àquela altura, me recebera com alguma cordialidade (animal).

Deixei-o comendo — apressado, voraz — aqueles restos de restos,
e vim embora.

Mas aqueles olhos tristes,
aqueles olhos sofridos e magoados.
Aquele quase clamor uivado
e interno,
aquela revolta, aquela corda
no pescoço ainda... ainda
sufocam-me.

Sílvio Fagno

⁠Traição –

Naquele dia eu morri.
Sim, eu morri.
Mas morri porque
mataram-me.

Eu não queria morrer. — em mim,
havia sonhos, havia desejos,
havia sentimentos.
Mas, naquele dia, mataram
tudo.
— Mataram os dias seguintes,
as semanas seguintes, os meses... aquele ano inteiro e todos os outros dias até este.
Mataram-me e dançaram sobre
meus restos mortais.

Ainda estou no chão
— quase imóvel, fragmentado, esquecido —
mas há um sol nascendo de dentro para fora,
forte como uma criança que cresceu,
mas não desaprendeu sua
melhor brincadeira.

Sílvio Fagno

⁠Circos Pobres -

⁠As redes sociais são como
circos pobres — de essência.
Com palhaços infelizes, superficiais e sem
muito talento.

Mas quando as cortinas se abrem (ainda que as piadas sejam
repetidas, vãs e, muitas
vezes, levianas),
é preciso divertir a plateia
— também de palhaços —
tão infelizes, medíocres e
superficiais quanto
todos eles.

Sílvio Fagno

⁠Como Se Fosse Arte –

E de repente,
dentro de uma eterna espera,
assim,
em um dia calmo e comum
(em que agora não recordo-me
a data), enfim, ela chegou.

E como se fosse arte e pintasse,
em mim, todas as outras
histórias desbotaram.

Sílvio Fagno

⁠Cruel –

Não estamos prontos para
a verdade.
Nunca estivemos, nunca
estaremos.

Sapos aparecem quando insetos
aparecem. — é a natureza
das coisas.
Embora o resultado disso (em que insetos são engolidos vivos), possa parecer, um tanto quanto, cruel, é apenas o fluxo natural
das coisas.

O SER HUMANO É CRUEL! — pois tem a consciência dos seus
atos — da dor do outro,
do sofrimento
do outro.

Mente conscientemente; maltrata conscientemente; mata
conscientemente.

Não estamos prontos para
a verdade:
Culpamos a sorte;
Culpamos o destino;
Culpamos a vida — nunca a
nós mesmos.

Culpamos deuses e diabos — nunca, nunca a nós mesmos.

Não estamos prontos para
a verdade.
Nunca estivemos, nunca
estaremos.

Sílvio Fagno

⁠Um Abismo –

⁠Minha felicidade é só um detalhe:
Um olhar, um sorriso...






— um abismo.

Sílvio Fagno